04/06/2026
Drama Biografia

Niki de Saint-Phalle

Retornando à França com o marido, fugindo o clima sufocante do macartismo, nos anos 1950, Niki de Saint Phalle dedica-se à vida de modelo e atriz. Depois de uma breve internação por problemas nervosos, ela descobrirá também a pintura e a escultura, usando diversos materiais, perseguindo um estilo que se tornará único. Na Reserva Imovision.

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Há tanta paixão em cada cena de Niki de Saint Phalle que não há como deixar de sentir a artista francesa, energicamente interpretada por Charlotte Le Bon, como uma pessoa viva aqui e agora. Esta é talvez a grande qualidade dessa estreia na direção de Céline Salette, atriz conhecida por filmes como L’Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância e Limonov: O Camaleão Russo. O filme fez parte da seção Un Certain Regard de Cannes.

Sem ter tido autorização para filmar as obras reais da pintora e escultora - algumas das quais podem ser vistas nas ruas de Paris ou num parque na Itália, o Jardim do Tarô -, que viveu entre 1930 e 2002, a diretora concentra-se em focalizar as muitas camadas dessa personalidade sensível, transbordando seus traumas num processo criativo cada vez mais expressivo, capaz de incorporar diversos materiais e técnicas a partir de uma intuição poderosa e afinada com seu tempo.

O filme acompanha Niki a partir dos anos 1950, quando ela e o marido norte-americano, Harry (John Robinson), trocam os EUA pela França para fugir do clima obscurantista do macartismo. Em Paris, Niki dedica-se ao trabalho de modelo e atriz, uma de suas muitas formas de expressão. Uma crise nervosa a coloca temporariamente numa instituição, em Nice, onde ela será submetida a eletrochoques - procedimento cruel mas ainda comum na época. Em compensação, foi nesse lugar que ela começou a experimentar com materiais como papeis, folhas e tintas e torná-los ferramentas de uma expressão artística.

Deixando o hospital, ela não quer mais atuar - apesar de receber insistentes convites, como do cineasta Robert Bresson. A arte tomou seus sentidos, materializando-se como uma extensão de seu corpo e de seus sentimentos, enquanto ela tenta levar uma vida em família, ao lado do marido e de dois filhos pequenos.

O filme retrata muito sensorialmente o processo heterodoxo da formação da artista, a partir de muitas viagens, morando na Espanha, visitando museus e experimentando técnicas novas. Dentro desse processo, entrou também a convivência com outros artistas, como Jean Tinguely (Damien Bonnard) e sua mulher, Eva Aeppli (Judith Chemla), que seriam seus vizinhos quando ela retorna a Paris. 

É notável a intensidade com que a atriz Charlotte Le Bon conduz a trajetória da artista, encarnando suas contradições e desejos com uma transparência luminosa, que permite compreendê-la em seu tempo e lugar, inclusive suas escolhas eventualmente duvidosas. É muito honesta, também, a maneira como a diretora insere a questão do abuso sexual sofrido pela artista dentro da família e seu particular confronto com um médico (Alain Fromager), pela maneira como este lida com a única prova que ela tem disso - uma carta.

Por essas e outras nuances, é um filme profundamente marcado no feminino, denso de humanidade e paixão.

 

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