Kedma, o novo filme do diretor israelense Amos Gitai, calou fundo nos ânimos durante sua exibição no Festival de Cannes de 2002. Situando sua história em maio de 1948, uma semana antes que os britânicos deixassem a Palestina entregue à interminável guerra que se seguiu entre árabes e judeus, Gitai contribuiu com uma aguda e contundente reflexão sobre aquela que é possivelmente a mais sangrenta guerra atual no mundo. Mostrando plano a plano a dificuldade, mesmo física, de ocupação dessa terra inóspita, Gitai enfoca o drama dos judeus que fogem ao massacre nazista na Europa e enfrentam o fogo de tropas britânicas, que procuram impedir o desembarque de uma emigração em massa. Entretanto, se é capaz de revelar o drama destes judeus sem pátria, cuja história, como um personagem diz num diálogo, foi roubada junto com a terra prometida, Gitai não hesita em dar a palavra aos palestinos - expulsos de sua própria casa por esses judeus que chegam de toda parte, dispostos a tudo, inclusive ao uso da força. A fala de um personagem palestino (Yussef Abu Warda) é um dos mais eloqüentes retratos da dor de seu povo: "Apesar de vocês, nós ficaremos aqui, como uma parede. Passaremos sem comida, sem roupas. Mas os desafiaremos. Encheremos as ruas em protesto. Nossos filhos ultrajados nos seguirão, geração após geração. Mas ficaremos aqui, como uma parede".
