Experiente diretor de vídeoensaios, o sul-coreano radicado nos EUA, Kogonada estreou no cinema com Columbus, um belo filme sobre que se passa na cidade do título, conhecida como a meca do brutalismo. Boa parte do longa consiste em dois personagens conversando emoldurados por duras belezas arquitetônicas. Seu novo trabalho, A Grande Viagem Da Sua Vida, curiosamente, tem uma estrutura parecida, mas, dessa vez, com uma mudança: a fantasia se torna um elemento central para a narrativa.
David (Colin Farrell) e Sarah (Margot Robbie) se conhecem por acaso num casamento de amigos em comum. Um clima surge entre eles, mas nada se concretiza. Porém, dois GPSs intrometidos fazem com que os dois dividam o mesmo carro e embarquem numa jornada marcada pela fantasia. A cada parada, uma nova porta, muitas vezes, no meio do nada, abre-se literalmente para outro cenário de possibilidades da vida da dupla que, eventualmente, pode se tornar um casal.
Simbolicamente, é uma jornada de reconstrução emocional, de redescoberta num tempo próprio num mundo marcado pela urgência. As visitas ao passado de cada um são particularmente marcantes. David, por exemplo, reencontra uma antiga paixão da adolescência, que não quis ficar com ele, e isso o marcou profundamente como sua primeira decepção amorosa. Reencontrar essa garota na situação em que ela lhe deu o fora poderia ser a possibilidade de transformar esse momento, mas não é assim que as coisas acontecem.
Sarah também tem a chance de se reconectar com seu passado em momentos de profunda delicadeza emocional do filme, quando ela reencontra sua mãe que morreu há anos. David também revê seus pais do passado, e compreende mais sobre si mesmo.
Em ensaios sobre cineastas como Jean-Luc Gordard, Wes Anderson, Hirokazu Kore-eda, entre outros, este diretor sempre mostrou um grande apreço por duas coisas: a construção da imagem e a montagem. Em A Grande Viagem Da Sua Vida esses elementos dão a consistência ao filme, que existe em seu mundo próprio. O roteiro assinado por Seth Reiss, por sua vez, não dá espaço a explicações, o que é um alívio, apenas pede que se compre a fantasia pelo preço que ela se vende.
Há momentos de estranho humor, como na locadora de carros onde David é obrigado a ir quando o seu carro é impedido de andar. O local, um grande galpão, conta com apenas dois funcionários interpretados com brio e comicidade por Phoebe Waller-Bridge e Kevin Kline, e apenas dois veículos.
Kogonada retoma elementos de seu Columbus aqui, mas os tempos são outros e demandam uma dose de fantasia para, mais do que compreensão, a possibilidade de lidar com o presente tão áspero. O colorido vibrante – cortesia da fotografia de Benjamin Loeb – nos lembra da possibilidade de um mundo melhor.
