Talvez ninguém esperasse, alguns anos atrás, que o cinema da britânica Andrea Arnold se tornasse uma espécie de tendência para jovens cineastas mulheres. Mas, enfim, se tornou – o que não é ruim, se for uma espécie de ponto de partida, e não apenas mera cópia de seu estilo, que combina realismo social com um olhar marcadamente feminino e para questões femininas. É como se a British New Wave chegasse ao século XXI, finalmente, assumindo esse lado.
Mika Gustafson, premiada como melhor diretora na Mostra Horizonte do Festival de Veneza, é sueca, mas seu longa ficcional de estreia, Paraíso em chamas, percorre essa mesma aura do realismo social pelo olhar de uma diretora. Além disso, coloca ao centro personagens femininas fortes e muito bem desenvolvidas. A protagonista aqui é Laura (a excelente estreante Bianca Delbravo), uma adolescente de 16 anos que se torna responsável pelas irmãs mais novas, quando a mãe some e as deixa sozinhas e sem dinheiro.
O olhar de Gustafson, que assina o roteiro com Alexander Öhrstrand, nunca é moralista ou julgador, pelo contrário. Há uma curiosidade grande sobre como esse trio de meninas, vivendo numa pequena cidade da Suécia, sobrevive e como encontram na sororidade a força para continuarem vivas.
Quando recebe a ligação de uma assistente social dizendo que fará uma visita à casa delas dali a uns dias para conversar com a mãe, Laura sai em busca de uma substituta para atuar como mãe durante alguns minutos. Ela encontra uma nova vizinha, Hanna (Ida Engvoll), uma jovem mulher também num momento de crise, conforme o filme revela aos poucos.
Paraíso em chamas encontra algo de lúdico para trazer esperança e força às meninas diante das adversidades. A trilha sonora também é outro momento de leveza num filme marcado por personagens em busca disso em suas vidas. Abrir o longa com a lúdica Some Sunsick Day, de Morgan Delt, é uma tremenda sacada que estabelece, logo de cara, o tom melancolicamente alegre do filme.
