04/06/2026

A Memória do Cheiro das Coisas

Veterano das guerra coloniais, Arménio está na faixa dos 80 anos e com a saúde fragilizada. Instalado numa casa para idosos, ele fica sob os cuidados de uma cuidadora negra, o que o obriga a encarar velhos preconceitos.

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A Memória do Cheiro das Coisas, como bem aponta o título, é um filme de sinestesias, um filme de sensorialidade sobre ecos do passado colonial de Portugal que reverberam no presente de um país em tensão com imigrantes, especialmente vindos e vindas das antigas colônias. É também sobre a ferida das guerras coloniais que não cicatrizaram até hoje. 

Dirigido por António Ferreira, o longa tem como protagonista Arménio (José Martins), octogenário e ex-combatente que é colocado pelo filho numa casa de repouso. O homem, que sempre foi livre, se vê agora dependente de outras pessoas. A situação se complica, aos olhos dele, quando passa a ser cuidado por Hermínia (Mina Andala), uma cuidadora negra.

O roteiro, assinado pelo diretor e Tiago Cravidão, busca trazer nuances a esses dois personagens, tentando compreender sua posição no Portugal de hoje, com as marcas do passado e as transformações do presente. Ao invés de vilanizar Arménio, o longa o coloca como um produto de seu tempo, das feridas de guerra. O que não quer dizer que o tome como herói ou concorde com tudo o que ele fez. Seu comportamento é repreensível, mas procura-se entender suas origens para que, enfim, possa ser transformado.

Nesse sentido, Arménio é o país que resultou da revolução de abril de 1974, quando Portugal se transforma abruptamente, sem deixar para trás todo o seu passado – ou ainda, sem saber lidar com esse passado, tornando-o uma espécie de fantasma que ronda um presente xenofóbico, num dos países mais pobres da Europa ocidental. 

Com uma presença marcante da dupla de atores, o longa é construído em suas incertezas de como o país possa ser transformado. Certamente, não há respostas simples, nem prontas, mas o diretor busca esse diálogo para que Portugal possa mirar no futuro. 

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