Nada como um letreiro “baseado em fatos reais” para dar um molho numa história como a de O Bom Bandido, em que Channing Tatum, também por trás da produção, atua como Jeffrey Manchester, um personagem que, no final dos anos 1990, ficou conhecido como “Ladrão do Telhado”.
O tom procurado pelo filme dirigido por Derek Cianfrance é arriscado - fazer um filme leve, agradável, com alguns toques cômicos e românticos sobre alguém que é um criminoso. A boa notícia é que ele consegue tudo isso, sem derrapar em nenhum elogio ao crime. Desde o começo, o próprio protagonista assume que tudo o que lhe aconteceu de ruim decorreu de suas “más escolhas”.
Não se conta muito da história pregressa de Jeffrey, apenas que ele é um ex-militar da guerra do Afeganistão que, como muitos veteranos, voltou para casa para encontrar um ambiente não muito acolhedor. Casado e pai de três filhos pequenos, ele já está separado de sua mulher (Melonie Díaz) e não consegue manter um emprego à altura de dar à família a vida que espera.
A aflição o leva a inventar o esquema dos roubos, entrando à noite pelo telhado de lanchonetes como MacDonald’s e Burger King e esperando os funcionários chegarem para abrir os cofres, sempre cheios de dinheiro miúdo. Mascarado e armado, ele no entanto fala macio com suas vítimas, que ele tranca na geladeira mas não sem antes fazê-los vestirem seus casacos. Na saída, ele rapidamente telefona à polícia para que venha liberá-los.
Durante dois anos, o esquema funciona, sem que ninguém saiba, fora o único amigo de Jeffrey, o também veterano Steve (LaKeith Stanfield) - que aliás se dedica ao lucrativo e clandestino negócio de fabricação de documentos falsos. Mas é óbvio que um dia a casa cai e Jeffrey vai parar numa prisão na Carolina do Norte, condenado a 45 anos de prisão.
Utilizando o mesmo senso fino de observação que o ajudou nos roubos, Jeffrey domina a rotina da prisão para bolar um sofisticado plano de fuga. E aí começa o capítulo mais inacreditável desta biografia: o fugitivo encontra esconderijo no teto de uma grande loja de brinquedos, desenvolvendo ali um habitat próprio, contando com os recursos do estabelecimento, que também vende camisetas, doces e sucos.
Todo esse período na loja deveria ter sido apenas um hiato numa fuga do país, prevista para quando a mídia esquecesse um pouco do caso, contando com a ajuda do amigo falsificador de documentos. Mas aí o imprevisto entra na equação. Enquanto vigia os acontecimentos da loja por meio de uma câmera que ajustou, Jeffrey começa a apaixonar-se por uma funcionária, Leigh (Kirsten Dunst), o que o leva a arriscar-se em incursões fora da loja.
Pensando em aproximar-se da moça, que é divorciada e tem duas filhas (Lily Collias e Kennedy Mayer), Jeff passa a frequentar o culto de um templo perto da loja que ela também frequenta. Assumindo um nome falso, John Zoris, ele começa a envolver-se com Leigh e as filhas, retomando uma convivência familiar que ele há muito perdera. Mas o relógio continua contando: até quando ele vai conseguir manter a farsa? E o que fará quando tiver que sumir?
Com uma boa mão para romances, comprovada em filmes como A Luz Entre Oceanos (2016) e Namorados para Sempre (2011), o diretor extrai o melhor deste relacionamento amoroso no meio de um filme sobre um ladrão, com uma verdade humana capaz de capturar o coração dos espectadores. Apesar disso, não trai o melhor de sua história em prol de nenhum excesso melodramático, mantendo o foco na realidade. No final, na subida dos créditos, vêem-se fotos dos personagens verdadeiros desta história incrível.
