04/06/2026
Drama

O Retrato de Norah

Órfã dos pais, Norah passou a viver na aldeia de sua família materna quando eles morreram num acidente. Criada na cidade, ela estranha os costumes locais. E tem sua atenção despertada para o novo professor, que desenha o rosto de seu irmão e lhe dá o retrato como prêmio pela boa nota. Desejosa de um retrato seu, ela manda mensagens para o professor. Mas é uma situação complicada, já que a religião muçulmana proíbe a reprodução da figura humana. Nos cinemas.

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Primeiro filme saudita a ser selecionado para o Festival de Cannes, em 2024, O Retrato de Norah venceu uma menção especial na mostra Un Certain Regard. Nada mau para um diretor estreante, Tawfik Alzaid, numa cinematografia ainda tão rarefeita quanto a da rica nação petrolífera. 

No roteiro, também assinado pelo diretor, a época é 1996, um período obscurantista em que todas as artes eram proibidas naquele país sob alegações religiosas. Nesse contexto sufocante, Nader (Yaqoub Alfarhan), deixa de lado sua vocação de pintor e abandona a cidade, partindo para uma remota aldeia no interior, onde trabalhará como professor da pequena escola local. 

Num ambiente desértico e despojado de tudo, até da eletricidade - que já está ao alcance, mas ainda é rejeitada pelos retrógrados velhos chefes locais -, o professor terá como encargo alfabetizar os meninos da região, já que às meninas esse direito era negado. E, ao invés de limitar-se aos versos do Alcorão, o professor traz na bagagem livros didáticos em que procura ampliar os horizontes de garotos que são filhos de agricultores e pastores.

A chegada do forasteiro acende uma centelha de mudança na cidadezinha, em que os hábitos do professor, a começar por suas roupas citadinas, chamam a atenção. A fotografia do sul-africano Shaun Harley Lee é particularmente eficiente em delinear a pequenez dos personagens dentro dessa paisagem imensa, arenosa, parecendo engoli-los em meio a estreitos caminhos em que se avistam, de tempos em tempos, camelos e também automóveis.Tão estreitos quanto a imaginação da maioria dos moradores.

A jovem Norah (Maria Barawi) vive ali, tão desolada quanto o horizonte que avista de sua janela. Está prometida em casamento a um rude jovem local, mas não tem a menor conexão com esse ambiente nem com essa mentalidade. Órfã desde criança, quando um acidente matou seus pais, ela vive com a tia (Aixa Kay) e demais parentes desse lado paterno da família, o que representou um choque radical para uma menina que tinha crescido na cidade. Sem outra perspectiva que esse casamento arranjado, ela cultiva um vício secreto em revistas estrangeiras, também elas proibidas, que o comerciante indiano local contrabandeia secretamente para ela em sua mercearia. Ela alimenta seus sonhos com as imagens de artistas de cinema, anúncios de moda e maquiagem, aplacando o tédio incolor de seus dias.

Um dia, seu irmão caçula traz da escola um desenho de seu rosto, um presente feito pelo professor Nader para celebrar a obtenção pelo menino da maior nota da classe. O singelo desenho desencadeia a trama central, a partir do fato de que a reprodução da figura humana era proibida pela religião muçulmana. Norah, no entanto, quer de qualquer modo que o professor a desenhe e manda-lhe um bilhete com o pedido - ao contrário da maioria das mulheres, ela é alfabetizada. 

Ciente do risco desse pedido, intermediado pelo comerciante, o professor nega veementemente. Mas a insistência de Norah, somada ao seu próprio desejo de retomar os pincéis, acaba encontrando uma saída engenhosa: ele se esconderá atrás das prateleiras da mercearia, todas as tardes, enquanto Norah posa para ele quando sai para as compras. 

Esse contato à distância, em que a princípio eles mal trocam alguma palavra e Norah sequer tira o véu que lhe recobre a maior parte do rosto, alimenta uma ligação que, se não chega a ser um romance, potencializa os desejos de mudança tanto da moça quanto do professor. Eles são espíritos livres aprisionados num mundo medíocre, atrelado a um fundamentalismo religioso que nega a cultura por seu potencial contestador. 

Num filme de diretor estreante, certamente notam-se pequenas irregularidades de ritmo e conexão de situações, mas isso pode-se perdoar diante da beleza e da poesia sutil deste relato, em que o cinema saudita está dando seus primeiros passos. 

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