18/07/2026
Drama Fantasia

O Filho de Mil Homens

Crisóstomo (Rodrigo Santoro) é um pescador solitário que vive à margem da sociedade e tem como única companhia um boneco de pano. Em busca de afeto e pertencimento, ele espalha pela feira um bilhete comovente: “Pai sem filho procura filho sem pai”. Seu gesto, incompreendido por muitos, revela o profundo desejo de formar uma família e desafia os preconceitos de uma comunidade marcada pela intolerância. Na Netflix.

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Apresentado numa concorrida première mundial na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o filme de Daniel Rezende adapta o livro homônimo do escritor angolano Valter Hugo Mãe, superando os desafios de uma obra considerada inadaptável.

Certamente, trata-se de uma adaptação empenhada e sensível, que coloca na tela uma série de personagens aparentemente inusitados, mas todos profundamente humanos, no ambiente de uma pequena e isolada localidade litorânea.

O protagonista é o pescador Crisóstomo (Rodrigo Santoro), um homem solitário que tem por única companhia um boneco de pano - que leva consigo no barco, quando vai pescar, e é seu único interlocutor à mesa do jantar. Tido como maluco, ele distribui na feira um curioso bilhete: “Pai sem filho procura filho sem pai”, traduzindo sua imensa vontade de constituir uma família. Uma atitude que contribui para que ele seja olhado ainda com maior desconfiança e preconceito.

Um dia, no entanto, esse bilhete chega às mãos de uma mulher, que encontra sozinho, ao lado do corpo do avô, um menino, Camilo (Miguel Martines). A partir desse encontro entre Crisóstomo e Camilo, começa a ser tecida a teia de uma família informal, à qual se unirão depois outras pessoas desgarradas ou incompreendidas, como Isaura (Rebeca Jamir), infeliz em seu casamento com um gay, Antonino (Johnny Massaro), que a vida toda foi reprimido pela mãe reacionária (Inez Viana). Isaura, aliás, também carrega na alma as marcas de sua convivência com uma mãe altamente neurótica (Grace Passô), que manifesta um comportamento autodestrutivo, sobretudo através da comida. 

O ambiente local é impregnado de preconceitos, especialmente contra pessoas de comportamento sexual livre, como uma moça com nanismo (Juliana Caldas), ostensivamente vigiada pelas vizinhas. Uma rara exceção é uma médica (Tuna Dwek), que também exerce um papel central no destino de Camilo.

Um ponto forte no filme é utilizar a beleza dos cenários de Búzios (RJ) e da Chapada Diamantina como um contexto destas vidas, entrelaçadas por conflitos e também por afetos que, embora difíceis, vão se construindo. O filme é muito sobre isso: afeto, construção de compreensão mútua, mais do que simplesmente tolerância. 

Diretor com uma filmografia diversificada, incluindo filmes infanto-juvenis como Turma da Mônica - Laços e Turma da Mônica: Lições, além de dramas como Bingo - O Rei das Manhãs, Daniel Rezende dá um passo adiante com um filme que se mostra comovente, poético e humanista.

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