Não fosse a presença de Emma Thompson, O Frio da Morte poderia ser um suspense banal com boa fotografia lançado diretamente em streaming, mas a atriz o eleva acima de uma fina camada de gelo que sustenta a narrativa. Seu carisma inegável é usado em uma personagem que passa por um momento de dor e precisa se tornar uma espécie de salvadora.
Barb (Thompson) perdeu o marido há pouco, ainda lida com o luto e tem uma missão especial: espalhar as cinzas dele num lago congelado onde tiveram o primeiro encontro. Em sua caminhonete, com seu equipamento de pesca e uma latinha com as cinzas do marido, ela atravessa quilômetros numa paisagem gélida, muito bem fotografada por Christopher Ross. O filme foi rodado na Finlândia, embora a trama se passe em Minnesota.
O roteiro de Nicholas Jacobson-Larson e Dalton Leeb não nomeia os personagens. Descobrimos os nomes ou apelidos apenas nos créditos finais. É como se isso reforçasse o caráter anônimo de cada um, numa história comum com pessoas comuns presas a uma série de incidentes pouco banais. Por isso, quando ele encontra um sujeito barbudo (Marc Menchaca) nada parece fora do ordinário – mesmo as manchas de sangue no gelo perto dele, que ele diz ser de um cervo.
Ela pede direções e ele explica como chegar ao lago e tudo dá certo. Ela passa momentos ternos lá, lembrando-se do passado, mostrado em flashbacks, nos quais a personagem é interpretada pela filha de Thompson, Gaia Wise. É só na volta que ela nota algo estranho na casa do sujeito. No porão, como vê pelas janelas, há uma jovem (Laurel Marsden) amarrada e amordaçada.
Contra o bom-senso, a protagonista resolve que irá salvar a garota sozinha, já que seu celular nem sinal tem ali. Mas, o sujeito barbudo nem é a pior pessoa no cenário. A mulher dele (Judy Greer) tem feições ainda mais alucinadas e um pirulito de fentanil (às vezes, dois), na boca o tempo todo, garantindo que o opióide esteja em seu corpo em tempo integral.
A direção de Brian Kirk se concentra na luta dessas personagens pela sobrevivência. Thompson é o centro disso, mas não deixa de ser interessante como três figuras femininas estão à frente da batalha de horrores na neve. O homem barbudo é mero coadjuvante quando sua mulher se mostra ainda mais potente e má do que ele. E, mesmo a jovem sequestrada, não é a vítima típica. Tudo isso é armado de forma bastante tensa numa narrativa de suspense crescente, de forma eficiente dando um destino heroico à inesperada heroína.
