Raridade nas telas brasileiras, o cinema do Panamá ganha um representante de peso em Querido Trópico, uma coprodução entre esse país e a Colômbia, que ganha uma credencial a mais ao ser protagonizado pela premiada atriz chilena Paulina Garcia - conhecida por Gloria, de Sebastián Lelio, que lhe deu o troféu de melhor atriz no Festival de Berlim 2013.
Passando dos documentários para esta que é sua primeira ficção, a diretora Ana Endara constrói o inusitado encontro entre duas mulheres de origem e formação muito distintas. Mercedes, ou Mechi (Paulina Garcia), é uma imigrante chilena que construiu uma família e uma empresa bem-sucedidas no Panamá. Hoje, no entanto, está debilitada por um acelerado processo de declínio mental pelo Alzheimer, o que leva sua filha, Jimena (Juliette Roy), a contratar uma cuidadora, Ana Maria (Jenny Navarrete), uma imigrante colombiana grávida.
Tanto quanto o passado de Ana Maria como intrigantes atitudes suas - passando um largo tempo em salas de espera conversando com gestantes aguardando consultas ou diante de berçários hospitalares - permanecem, por um tempo, misteriosos, até que se revele, pelo menos, uma parte de sua verdade. Com Mechi, ela terá que redobrar sua paciência, já que a nova patroa se mostra intolerante com sua presença e, eventualmente, até mesmo cruel.
Mas existe, entre essas duas mulheres, de experiências tão diferentes, um espaço de vulnerabilidade em que elas, afinal, podem se encontrar - mais por gestos e olhares que as duas atrizes sabem tão bem construir, substituindo as palavras que lhes faltam para erguer outras pontes.
A maternidade problemática é outra ponta a unir estas duas mulheres, com um luto que constitui o grande segredo de Ana Maria. Este segredo, afinal, é um dos pontos de tensão permanente, sempre a um passo de uma ruptura, assim como a racionalidade que escapa, cada vez mais, a Mechi.
A personagem de Ana Maria evidencia também a situação de classe das empregadas domésticas que dormem no emprego e não têm vida própria, morando em quartinhos apertados, mesmo que, na ampla casa de Mechi, acha tantos quartos vazios - porque seus filhos adultos, já casados, não vivem mais ali. Uma situação que existe ainda em países como o Brasil.
Estes e outros fatores são construídos no filme assim, sem excesso de verborragia, com consistência e, sobretudo com imagens eloquentes - das quais o verdejante jardim da casa de Mechi será uma metáfora poderosa, não só da vida pujante que ali pulsa, de sua característica de refúgio e seu caráter simbólico, que transborda no título, afinal, justificadamente poético e singular.
