Coprodução entre Brasil e Estados Unidos, o drama Quase Deserto traz uma ambiguidade em seu título que não se materializa em si. Há a ideia de um deserto por um clima seco, e, também, o ato de desertar – coisa que os personagens quase fazem, abandonando seus sonhos. Só é curioso, que a essa altura, ainda existam personagens imigrantes se apoiando no tal sonho americano.
O longa dirigido por José Eduardo Belmonte, e roteirizado por ele, Carlos Marcelo e o uruguaio Pablo Stoll, tem a urgência do presente, com agentes da ICE, o serviço de imigração dos EUA, perseguindo as personagens que vivem ilegalmente no país. Mas a maneira como no longa se lida com isso chega a ser desinteressante e óbvia.
Vinicius de Oliveira – que sempre será carinhosamente lembrado como “o menino de Central do Brasil”, mesmo no alto de seus atuais 40 anos – é Luís, um brasileiro vivendo em Detroit, cidade outrora conhecida por sua potente indústria automobilística, que agora é o cenário perfeito para um filme apocalíptico – o que não é exatamente o caso aqui.
Para conseguir um green card, ele tenta se passar por noivo de Milena (Alessandra Negrini), brasileira que vive legalmente no país e ganha a vida fazendo esse tipo de serviço. O plano não dá certo, mas ele não desiste. Por acaso, assistindo a um jogo de futebol na televisão com amigos, conhece um argentino, Benjamín (Daniel Hendler), um jornalista investigando um esquema de corrupção envolvendo venda de imóveis.
Novamente por acaso, eles testemunham o assassinato de um homem e, novamente ao acaso, ajudam na fuga da filha deste, Ava (Angela Sarafyan), para que não seja também morta. A jovem neurodivergente tem uma rara síndrome (fictícia) conhecida como a doença do amor, que faz com que ela aja empaticamente com todos de forma quase infantil. No filme, ela é conhecida como “a garota boba”.
Sem articular muito bem o roteiro, o filme transita entre um drama sobre imigração e um drama policial sobre corrupção sem nunca ser ir a fundo em nenhum gênero. De coisas mal explicadas – como a tornozeleira de Luís – a personagens totalmente descartáveis – como Mindurí (Thaís Gulin) –, Quase Deserto é um filme com potencial, mas uma execução insatisfatória.
