O norueguês Edvard Munch (1863-1944) é um pintor conhecido por um dos quadros mais famosos da modernidade, O Grito - cuja misteriosa sugestão de desespero e angústia sintetiza o cerne da obra desse pintor expressionista, que traduziu em sua obras os traumas de uma infância pobre, numa família afetada por mortes precoces e distúrbios mentais, e os pesadelos de uma época de grandes transformações tecnológicas mas também duas guerras mundiais.
Munch: Amor, Fantasmas e Vampiras, de Michele Mally, é o tipo de documentário que mergulha nas águas turbulentas dessa biografia de maneira à procura de indícios da relação visceral que uniu vida e obra do distinguido pintor. Em sua época, a Noruega era parte da Suécia e Oslo, cidade onde nasceu, chamava-se Cristiania. Era também uma cidade de intensa vida cultural, povoada por intelectuais como o escritor anarquista Hans Jaeger e o dramaturgo Henrik Ibsen - este, um assíduo frequentador do Grand Café, centro da vida boêmia da cidade.
Superando as vicissitudes de sua origem familiar, Munch tornou-se também integrante de um círculo de artistas, expandindo seu talento não só na pintura como na escrita de copiosos cadernos, onde anotava suas experiências e criava também os desenhos que davam origem a seus quadros - e são hoje uma preciosa fonte para o estudo de sua vida e obra.
A subjetividade atormentada de alguém que, muito cedo, perdeu a mãe, a irmã e o irmão e, mais tarde, viu outra irmã internada por esquizofrenia, marcou sempre suas pinturas, que retratam sempre figuras como que saídas de pesadelos, cuja dolorosa expressividade não raro causou escândalo - como aconteceu em sua primeira exposição em Berlim, em 1892.
Ao mesmo tempo, suas relações com as mulheres foram sempre marcadas pela tensão e mesmo a desconfiança. Munch ao mesmo tempo as temia e desejava e chegou a descrevê-las como “nocivas”, embora não tenha nunca aberto mão de eleger várias delas como suas musas, numa época em que o feminismo rasgava limites para os papéis até então atribuídos às mulheres - e que seriam discutidos nas obras teatrais de Ibsen e também do sueco Strindberg, seu rival nos palcos.
Os problemas emocionais de Munch levaram-no ao alcoolismo e à internação numa clínica psiquiátrica, da qual saiu curado e pronto para levar uma vida mais tranquila e que foi, afinal, longa. Transferindo-se para Ekely, perto da capital norueguesa, ele viveu ali de 1916 até sua morte, dormindo, aos 80 anos, em 1944. E deixando atrás de si o legado de uma obra singular e que atravessa várias épocas.
