A Voz de Hind Rajab, da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania, não é um documentário mas tem a urgência das coisas vividas e doídas. Abordando a desesperada tentativa de socorro a uma menina de 6 anos na Gaza bombardeada pelo exército israelense, o drama venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza 2025 e ganhou uma indicação ao Oscar de filme internacional e também ao Bafta em língua não-inglesa.
Embora se trate de uma ficção, ouvem-se no filme os áudios reais dessa garotinha de apenas 6 anos, Hind Rajab, escondida num automóvel, cercada pelos cadáveres de seus tios e primos, pedindo socorro pelo celular aos atendentes do centro de emergências do Crescente Vermelho, depois de um novo ataque em Gaza - um fato ocorrido em 29 de janeiro de 2024, quando o exército israelense ordenou a evacuação do bairro Tel Al-Hawa e seis membros da família Hamadeh, além da sobrinha Hind Rajab, foram mortos a tiros em seu automóvel quando tentavam sair.
Minimalista, o novo filme da diretora, conhecida por O Homem que Vendeu Sua Pele (2020) e As 4 Filhas de Olfa (2024) reproduz, com intensidade claustrofóbica, sem sair do centro de socorro, o drama da menina ferida e o esforço de seus interlocutores para negociar uma rota segura para a ambulância que está a uma distância de apenas 8 minutos, pronta para resgatá-la. Como se sabe, nesta guerra os socorristas palestinos também têm sido alvos de ataques das tropas israelenses e a própria circulação das ambulâncias depende de complexas negociações com várias autoridades, como o Ministério da Saúde palestino, o comando militar israelense e eventuais intermediários, como a Cruz Vermelha.
Este pesadelo burocrático das negociações que se arrastam por horas para o resgate da menina aumenta o desespero dos atendentes - Omar (Motaz Malhees), Rana (Saja Kilani), a psicóloga Nisreen (Clara Khoury) e o coordenador Mahdi (Amer Klehel) -, que se revezam para manter a conversa com a garotinha, avaliando seu estado, tentando manter seu moral e, ao mesmo tempo, procurando correr contra o tempo que se esgota. A guerra, nunca vista diretamente, entra por meio dos sons de tiros e explosões que de quando em quando invadem a ligação.
Cirúrgico em sua abordagem, o filme se mostra o mais eloquente manifesto para que alguma solução seja encontrada o quanto antes para este que é provavelmente o maior drama dos dias atuais, o massacre de civis e a crise humanitária em Gaza. As imagens reais do lugar onde tudo se passou, no final, dispensam qualquer comentário nesta guerra unilateral em que não se respeita nenhum protocolo mínimo, contribuindo para que os retratos e nomes das vítimas continuem a lotar as paredes da sede do Crescente Vermelho. Que nenhuma delas seja esquecida - inclusive a menina Hind Rajab, que deveria ter tido direito a uma infância e um futuro, como milhares de outras vítimas em Gaza.
