19/07/2026
Drama

A Cronologia da Água

Desde pequena, Lidia sofreu abusos dos mais diversos tipos em família. Com o tempo, descobre na natação e na escrita maneiras de lidar com os traumas mas, antes disso, precisa aprender como dominar seus próprios impulsos autodestrutivos. Nos cinemas.

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Kristen Stewart e Robert Pattinson formam uma dupla interessantíssima. Poderiam encostar na fama de Crepúsculo, fazendo filmes de sucesso e tolos, embolsando cachês gordos sem muito esforço. Mas, não, arriscam-se. Ele foi fazer filmes com cineastas renomados e pouco comerciais, como David Cronenberg, Claire Denis e Lynne Ramsay. Ela também investiu numa carreira de atriz que privilegia substância. E agora estreia como diretora com A cronologia da água, num filme que se encaixa muito bem nas suas escolhas artísticas dos últimos anos. 

Baseado num livro de memórias da escritora estadunidense Lidia Yuknavitch, esse não é um filme que facilita para si mesmo, para sua protagonista ou mesmo seu público. Narrado de forma impressionista, as cenas não se concatenam, acontecem de forma aparentemente aleatória, mas, aos poucos, se organizam numa narrativa fragmentada que espelha o estado mental e emocional de sua protagonista, vivida por Imogen Poots.

Lidia cresceu numa casa marcada por abusos emocionais e sexuais. Mesmo diante de todas as dificuldades, ela busca na natação e na literatura o caminho para escapar disso, e se reconstruir como ser humano e levar uma vida minimamente saudável e funcional. Não é um caminho fácil, pois sexo e drogas entraram na equação e se tornam uma maneira de reproduzir por e para si mesmo os comportamentos abusivos dos quais ela procurava escapar. 

É uma personagem difícil de compreender, mas humana em sua existência e suas ansiedades que Stewart e Poots trazem à tela, de forma muito sincera e com carinho por essa figura que encontrou no escritor Ken Keasy (Jim Belushi), autor de Um estranho no ninho, um mentor e um protetor.

Tudo isso é narrado pelo prisma interior de Lidia, um artifício narrativo arriscado, especialmente para uma diretora estreante, com o qual Stewart é capaz de lidar de maneira orgânica. Assinando também o roteiro, ela foge das armadilhas ao evitar caminhos óbvios, arriscando na fotografia (de Corey C. Waters) e na montagem (Paris Hurley) para assim fazer justiça ao livro e à história de Yuknavitch, que não caberia num filme convencional. 

Contando a trajetória da escritora sem optar por uma cronologia, o filme cria um vasto painel de impressões e conexões temáticas e de episódios que, juntas, dão conta da consciência dessa mulher. Ela cresceu em São Francisco, ao lado da irmã mais velha (Thora Birch), da mãe (Susannah Flood) e do pai (Michael Epp), um homem tão interessante quanto perigoso em seu amor asfixiante e suas obsessões. Sem precisar ser explícito nos abusos, o filme sabe como a sugestão é ainda mais assustadora. 

Bons atores e boas atrizes quando estreiam na direção conseguem, na melhor das hipóteses, fazer filmes em que seu elenco brilha. São raros os casos em que o resultado vai além disso, e é o que acontece com Stewart, mostrando-se uma cineasta sofisticada e consciente da gramática do cinema, que é feita por imagens e não texto. Assim, estreia como uma grande promessa de que filmes ainda mais impressionantes virão. 

 

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