22/07/2026
Drama

Segunda-Feira ao Sol

post-ex_7

O filme dirigido pelo espanhol Fernando León de Aranoa, indicado pela Espanha para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro em 2002 - batendo o favorito, Fale com Ela, de Pedro Almodóvar - , mergulha nos dramas pessoais de um grupo de estivadores desempregados. Santa (Javier Bardem, perto do que se pode chamar de perfeição) é um tipo orgulhoso. Além de não ter nenhuma fonte de renda, fora o seguro-desemprego, e passar seus dias bebendo no bar, como os amigos, Santa tem um problema a mais: está sendo processado pelo estaleiro, por ter quebrado uma lâmpada, o que vai lhe custar oito mil pesetas. Não é que a quantia seja exorbitante, mesmo em suas condições atuais. Mas não pagar para ele é uma questão de honra, de dignidade. O orgulho é o traço definidor deste homem que perdeu tudo o mais. Isso é que o move a derramar ostensivamente na pia a bebida que lhe oferece um ex-colega, agora subempregado como vigia de um estádio, Reina (Enrique Villén). Quando este protesta contra o que considera como grosseria, Santa replica: "Você sabe como eu sou. E eu sou assim há muito tempo".

 

Os outros personagens não ficam atrás. Como José (Luis Tosar), que luta para manter ao seu lado a mulher, Ana (Nieve de Medina, excelente), que é quem agora sustenta a casa num duro emprego num frigorífico de pescado. Lino (José Ángel Egido), desesperado para disfarçar os sinais da idade, pegando roupas emprestadas do filho, tinge o cabelo e espera em vão o retorno dos telefonemas das agências de emprego.

 

Um dos aspectos mais peculiares está no humor ríspido, afiado como navalha, que lembra muito Meus Caros Amigos e Quinteto Irreverente, de Mário Monicelli, até porque conta com um elenco de atores espetaculares. O segredo está num roteiro muito bem-amarrado e conciso, assinado pelo diretor Leon de Aranoa e por Ignazio Del Moral e igualmente na direção desses atores excepcionais, vivendo personagens idem. Como o velho Amador (Celso Bugallo), solitário que esconde de todos ter sido abandonado pela mulher e vive num apartamento que é um verdadeiro depósito de sucata e lixo - e a cena em que Santa descobre este cenário desolado é um dos pontos altos do filme.

 

Por essas e outras, Segunda-Feira ao Sol faz boa companhia às obras do britânico Ken Loach, com reflexões ácidas contra a globalização. E, como em Ken Loach, o humanismo que encharca os personagens e os torna pessoas verossímeis, de carne e osso, predomina contra o discurso político e dá ao filme a espetacular força que ele tem para mover a platéia. No Festival de Gramado/2003, obteve quatro prêmios: melhor longa-metragem latino, melhor ator (Bardem), melhor diretor e o troféu da crítica.

post