22/07/2026
Ação

Era uma Vez no México

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Para quem conhece o trabalho de Robert Rodríguez, a primeira pergunta que vem à mente depois de uma sessão de Era uma vez no México é: será que ele enlouqueceu? Realmente, a qualidade das cenas de ação é boa, provocando até certa euforia durante os duelos entre mocinhos e bandidos. No entanto, a importância dada aos aspectos visuais predomina em toda a produção, em detrimento dos processos mentais dedicados a uma narrativa coerente e interessante.

 

A produção encerra a trilogia do El Mariachi, personagem criado pelo diretor em 1992, em filme homônimo de muito sucesso, apesar dos escassos recursos. Passado no interior do México, o filme conta a história de um pistoleiro-cantor que, por vingança, decide enfrentar uma organização de traficantes de drogas.

 

O assunto rendeu uma continuação (Balada do Pistoleiro) em 1995, já com o aporte americano, trazendo Antonio Banderas no papel-título e Salma Hayek na pele da fogosa Carolina, que apimenta a trama. Muito similar ao primeiro, apesar da queda significativa de qualidade, El Mariachi segue em sua luta contra os opressores e narcotraficantes. E claro, muita música.

 

Em 2003, a história vai um pouco além da vingança. Conhecendo sua fama, o agente Sands (Johnny Depp), da CIA, contrata os serviços de El Mariachi para evitar um golpe de estado. Um corrupto general do exército planeja assassinar o presidente do México e tomar o poder. El Mariachi aceita, pois tem uma conta pendente com o tal general. Paralelamente vemos os esforços de um agente aposentado do FBI (Rubén Blades) para capturar um perigoso narcotraficante, Barillo (Willem Dafoe), que está sendo traído por seu assecla Billy (Mickey Rourke).

 

O poderoso criminoso, por sua vez, também está envolvido com o general, que sustentará a facção depois de instaurada uma nova ordem. Todas essas histórias acabam numa sangrenta guerra civil armada, promovida no mesmo dia da festa mexicana do Día de los Muertos. Nada mais apropriado.

 

A trama soa confusa e realmente é. Isso porque ainda não foi mencionada a presença da bela Eva Mendes, como filha policial de Barillo, nem mesmo a participação de Danny Trejo, como Cucuy, que começa trabalhando para um e depois presta serviço para outro vilão. Explicações? Essa preocupação passa longe do roteiro.

 

Enfim, há uma torrente de personagens no filme, cada um com propósitos misteriosos, de tal forma que, ao final da história, reina a confusão. Isto, em resumo, mostra que a trama é apenas um pretexto para as intensas cenas de ação. Some-se isso ao fato de o filme ser feito todo em vídeo digital de alta resolução, com as novas câmeras que gravam a 24 quadros por segundo. Essa tecnologia facilita enormemente a captura de imagens e permite grande flexibilidade para improvisar e obter material de grande qualidade em tempo recorde. Com essa parafernália, quem precisa de enredo?

 

Mesmo assim, o diretor ganha pontos na escolha do elenco. Rodríguez elegeu atores e atrizes cuja mera personalidade basta para tornar seus personagens interessantes, apesar de todo o estereótipo. Destaca-se aí Johnny Depp, como o corrupto agente Sands. Mesmo com curtas participações, Rubén Blades e Willem Dafoe realizam um bom trabalho. Curiosamente, Antonio Banderas como o herói, é quem menos brilha. Fato talvez causado pelo excesso de personagens.

 

Há quem diga que o filme é inspirado em Era uma vez na América (1984), do diretor Sergio Leone, reconhecido por seus "western-spaghetti". O que pode ter certa razão quando se coloca a questão do triângulo amoroso entre El Mariachi, Carolina e o general Marquez. Ou mesmo na idéia de formação de um povo em meio ao caos. No entanto, o caudaloso roteiro mexicano repele completamente essa ligação. Fica a dúvida se Era Uma Vez no México não seja apenas uma grande brincadeira, repleta de sarcasmo, proveniente da mente criativa de Rodríguez.

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