Dirigido pela norueguesa Mona Fastvold - mulher de Brady Corbett (O Brutalista), seu corroteirista aqui -, O Testamento de Ann Lee resgata a história de uma mística inglesa do século 18, interpretada por Amanda Seyfried, sob forma de um musical. Esse não é, nem de longe, realmente um problema. Em arte, tudo se pode permitir em termos criativos, mas o fato é que o filme, centrado demais em dar proeminência a Amanda Seyfried, não funciona.
É fácil entender porque a figura histórica de Ann Lee despertou o interesse do casal de roteiristas. Nascida em Manchester, em 1736, numa grande família de trabalhadores, ela foi, desde criança, inspirada por visões, tornando-se bastante devota e entrando na seita comandada por um casal, Jane (Stacy Martin) e James Wardley (Scott Handy) - e é aí que descobre o canto e a dança como forma de purgar o pecado do corpo, fisicamente. Mas é Ann quem, finalmente, se torna a líder da seita dos Shakers, tratada como Mãe Ann, ou seja, a nova encarnação de Cristo na Terra sob a forma de mulher. Depois de uma prisão, em 1770, ela decide emigrar para a colônia inglesa na América, acompanhada pelo irmão, William (Lewis Pullman), e o marido Abraham (Christopher Abbott) - com quem ela teve um relacionamento infeliz, resultando em quatro gravidezes que terminaram na morte prematura dos bebês.
Esse pioneirismo feminino, em pleno século 18, certamente é atraente, ainda que submetido ao extremo moralismo da própria seita comandada por Ann Lee - que, analfabeta, acreditava receber sua inspiração diretamente de Deus, recusando a teologia, e era guiada por uma repulsa ao sexo, considerado por ela como a razão do afastamento da humanidade de Deus. A única expressão corpórea destes devotos era mesmo essa sua frenética dança e os cantos - que são realmente hinos Shaker, arranjados por Daniel Blumberg, que também compôs canções para o filme. As danças, por sua vez,são resultado da coreografia de Celia Rowlson-Hall.
Por mais original que isso pareça a princípio, os números musicais e de dança são muito repetitivos e o enredo se perde sem dar o devido contexto à história de Ann Lee, muito menos conseguir materializar dramaturgicamente como uma mulher conseguiu, em sua época, ter esse lugar de proeminência. A diretora igualmente não consegue discutir a questão do fanatismo, que certamente caberia num enredo que incluísse um pouco mais de complexidade de seu tema e de sua época.
