Está aqui o tipo de filme politicamente correto com o qual não é fácil de simpatizar - o que pode ser, ironicamente, uma de suas maiores qualidades. O roteiro, do estreante Charles Randolph, não contém traços do bom-mocismo piegas que costuma vincar histórias questionadoras da pena de morte. Sua espinha dorsal é bastante provocativa - pretende demonstrar que a máquina de incriminamento dos réus nos EUA pode ser levada a erros colossais. Um pressuposto que não é novo (uma trama semelhante já foi usada por exemplo em Suplício de uma Alma, de Fritz Lang, em 1956) mas aqui estrutura-se com detalhes inteiramente diferentes.O protagonista, David Gale (Kevin Spacey) é um ex-professor de filosofia brilhante, autor de dois livros, filho de diplomata mas cuja vida enveredou numa espiral decadente desde um escândalo com uma aluna (Rhona Mitra). A garota provoca o professor até seu limite e, quando ele finalmente concorda em fazer sexo, ela começa a gritar e o acusa de estupro. Uma imprudência que custa o emprego ao professor e dá o golpe final em seu casamento, embora tudo que sua mulher (Elizabeth Gast), que já tem um amante na Espanha, procurasse fosse justamente um pretexto para dar o fora. É o que ela faz, levando consigo o filho pequeno, que era apegadíssimo ao pai e vice-versa.Desmoronando após tantos desastres, o professor acaba aceitando empregos mais humildes e faz amizade com Constance Harraway (Laura Linney), uma ativa militante do Death Watch, grupo que organiza atos contra a pena de morte. Anos depois, ironicamente, é o próprio David Gale quem se encontra no corredor da morte, justamente porque teria estuprado e matado Constance.Quem é encarregada de desvendar a estranha história de Gale é uma repórter, Bitsey Bloom (Kate Winslet) - convocada especialmente pelo réu a três dias de sua execução. Bitsey, aliás, é a coleção de clichês que costuma formar os repórteres de filmes - metida, ambiciosa, indomável, heróica. A revista para a qual trabalha também não é muito recomendável - sensacionalista e disposta a pagar nada menos de US$ 500 mil ao condenado à morte pela exclusividade da entrevista, que não poderá ser gravada. Mas o fato de que há pouco tempo a repórter preferiu passar alguns dias na prisão a entregar a fonte de uma reportagem parece credenciá-la à missão de que Gale a julga capaz. E da repercussão que ele espera, ainda que possa não estar vivo para desfrutá-la.Não é a primeira vez que o inglês Alan Parker cutuca mazelas americanas. Ele já o fez expondo os traumas da guerra do Vietnã em Birdy (84), o racismo e a perseguição aos militantes dos direitos civis em Mississippi em Chamas (89) e os campos de concentração para japoneses e nipo-americanos nos EUA durante a II Guerra em Bem-Vindos ao Paraíso (91). Já provou, portanto, ter um bom faro para assuntos polêmicos e é tido como um apaixonado opositor da pena de morte. Tanto que, neste filme, dividiu a produção com Nicolas Cage, ator que ultimamente tem usado seu poderio para levantar dinheiro para projetos que saem ainda que parcialmente da cartilha dominante em Hollywood.
