O Velho Fusca, de Emiliano Ruschel, parece um filme das antigas, tal qual o carro do título. E isso não é um elogio. Ter um fusca hoje pode ser descolado, vintage, algo de nostálgico até. O longa, por sua vez, reproduz discursos ultrapassados sem nunca fazer o mínimo de mea culpa, colocando tudo nas costas de um personagem preconceituoso, racista, homofóbico e machista.
Interpretado por Tonico Pereira, o Vovô, como é chamado no filme, fala os maiores impropérios, causando um mal-estar em quem assiste ao filme. Dizer a um homem preto que ele “nasceu de um [ânus]”, não soa engraçado. O maior problema é o filme tomar isso como piada e justificar que o personagem preconceituoso é de “outro tempo.”
Que o protagonista, o neto dele (interpretado por Caio Manhente), mal fique indignado com essas falas do avô é mais um sintoma da falta de conexão do filme com o mundo contemporâneo, apenas fortalecendo a visão dos privilégios – afinal, o homem idoso branco pode falar o que quiser. Aos personagens negros cabem papeis secundários, como o melhor amigo (Isaias Silva), o vilão (Christian Malheiros) ou vítima, e o motorista (Yuri Marçal).
Na trama, assinada por Bill Labonia, o protagonista, que acaba de completar 18 anos, quer que o avô lhe dê o fusca velho que está parado na garagem, e nem funciona mais. Enquanto o garoto conserta o carro, tenta reatar os laços entre seu pai (Danton Mello) e o tio (Rodrigo Ternevoy) com o avô.
Ao mesmo tempo, o rapaz, que trabalha num restaurante, está apaixonado por uma colega, Laila (Giovanna Chaves), que, convenientemente, treina boxe ao lado da casa do avô. As personagens femininas são outro grande problema aqui. São poucas – além da jovem, destaca-se também a mãe do protagonista, interpretada por Cleo – e sempre caricatas, cuja função dentro do filme se restringe a girar em torno do protagonista. Nenhuma delas tem profundidade ou vida própria.
Ruschel, que tem no currículo Segredos (um filme brasileiro falado em inglês), desperdiça o potencial do ponto de partida num longa que nasce velho em sua visão de mundo, em seu machismo e homofobia, marcado por frases de efeito e atuações limitadas, além de uma trilha sonora insistente e onipresente. Poderia ter rendido uma história de afeto e perdão, em mãos mais habilidosas que soubessem lidar com as questões do presente de forma mais assertiva. Não há dúvidas de que existem pessoas que pensam e agem como o vovô do filme, mas daí a deixar que o personagem passe impune é concordar com as atitudes dele.
