Natasha Neri e Gizele Martins colocam o dedo numa das feridas mais dolorosas do País no documentário Cheiro de Diesel - cujo título não entrega de cara o vespeiro onde ele pretende mexer. Ou seja, o traumático saldo deixado em comunidades cariocas na esteira das operações de ocupação pelo exército, promovidas a poder de GLOs a partir de 2014.
Comunidades como a Maré, a Penha e o Morro do Salgueiro foram alguns desses locais ocupados por militares desde o contexto da Copa do Mundo de 2014, com repetições em 2015 e depois entre 2017 e 2018, sob o pretexto de resgatar territórios dominados pelo narcotráfico. O saldo, porém, foram mortes de inocentes e abusos de direitos humanos, como detenções arbitrárias, torturas e processos infundados.
São estes traumas o objeto do filme das duas jornalistas, Gizele, originária da Maré e membro da comissão de Direitos Humanos da Alerj; Natasha, por sua vez, codiretora de outro documentário potente sobre violência policial/militar, Auto de Resistência (2018). Escudadas nesse conhecimento profundo do tema espinhoso que abraçaram, elas se movem nas comunidades, ouvindo sobreviventes dessas operações, que deixaram traumas até agora irresolvidos - e não foram substituídas por soluções adequadas aos problemas que supostamente vinham enfrentar. Um dos motivos sendo, obviamente, o despreparo das tropas militares para o problema da segurança pública e um uso da violência nunca devidamente investigado ou punido dentro da lei.
Por essa circunstância, Cheiro de Diesel tem a importância de recolocar o debate: que tipo de segurança pública se tem no País, que se deseja democrático? Quando é que se olhará para as comunidades cariocas com menos preconceito e quando se colocará em funcionamento algum mecanismo de reparação e cura? Essa pergunta que não quer calar tem que permanecer viva até que haja, enfim, uma resposta.
