Depois da minissérie Carlos, O Chacal e de filmes como Wasp Network - Rede de Espiões e Depois de Maio, o diretor francês Olivier Assayas tornou-se um dos preferidos para tocar produções de conotações políticas. Ele o faz novamente em O Mago do Kremlin, em que adapta o bestseller homônimo do autor ítalo-suíço Giuliano da Empoli, que se debruçou na figura de um conselheiro que moldou a ascensão do líder russo Vladimir Putin.
O personagem fictício ganhou o nome de Vadim Baranov, interpretado por Paul Dano. Ele se inspira numa pessoa real, Vladislav Surkov, guardando com ele inúmeras semelhanças. Nascido na Chechênia em 1964, ele mudou seu nome, de nascença Aslambek Dudayev, trabalhou no teatro e na TV e foi essencial na atualização do nacionalismo russo, fraturado após a queda da URSS nos anos 1990, em torno da figura forte de Vladimir Putin, um egresso do serviço secreto que participou do governo de Boris Yeltsin, e cuja personalidade política Baranov construiu passo a passo com técnicas de propaganda, mostrando-se particularmente eficaz no controle das narrativas que cercam o poder - nada mais moderno num mundo assombrado pela pós-verdade e a profusão das fake news.
Fazendo a transição de jovem rebelde dos últimos tempos da URSS, Baranov mergulha no teatro, apaixonando-se pela musa Ksenia (Alicia Vikander), estrela de performances underground dos anos 1980. Dali passa à TV, sob a égide do empresário Boris Berezovsky (Will Keen), o primeiro a perceber o potencial de Putin (Jude Law), no final da era Yeltsin.
Como outros oligarcas, Berezovsky cai em desgraça com Putin - que ele subestimara, pensando que poderia controlá-lo - e exila-se na Inglaterra. Baranov, por sua vez, continua ao lado de Putin, sendo responsável pelo aperfeiçoamento dos instintos da criatura política cada vez mais astuta e concentradora de poderes mas que finalmente também deixará de confiar em Baranov - que passa a correr perigo.
No enredo, cria-se a figura de Rowland (Jeffrey Wright), um intelectual norte-americano, estudioso da Rússia, que viaja a Moscou e mantém com Baranov uma longa conversa, que permite ao filme descortinar a complexa ascensão de Putin - interpretado com verve por um Jude Law que assume inclusive uma notável semelhança com o personagem.
Curiosamente, é este Putin durão, desconfiado, mas muito esperto que ocupa cada vez mais o centro do filme, em que Baranov se dilui, como alguém reduzido aos bastidores e, finalmente, submetido a uma prisão domiciliar - o que leva a suspeitar da razão porque lhe teria sido permitido falar ao americano Rowland.
De todo modo, este será mais um filme que não dará conta de várias faces do enigma Vladimir Putin, com todas as suas contradições, uma figura-chave da política mundial. Baranov/Surkov, certamente, foi um dos artífices de sua persona política, limando alguns aspectos mais toscos e rudes de seu comportamento mas, com o tempo, ele mesmo assumiu o controle de uma forma autoritária e personalista, que o mantém no poder há 25 anos, alternando-se nos cargos de primeiro-ministro e presidente, mediante eleições diretas.
