Vencedor de quatro prêmios no Festival de Gramado 2025, o filme de Douglas Soares colocou em foco uma história tensa, com um forte componente policial e que revela o talento do jovem Ruan Aguiar, dividindo a tela com o sempre impecável veterano Gero Camilo (vencedor do Kikito de melhor ator).
A ambiguidade começa pelo título do filme, em que há um papagaio real, Papo, mascote do personagem Tunico (Gero Camilo), este um curioso “papagaio de pirata” profissional. Já sexagenário, Tunico se mantém informado dos eventos de impacto no Rio de Janeiro, capazes de atrair cobertura midiática, para colocar-se diante de fotógrafos e câmeras de televisão. Para isso, conta com o apoio de amigos fiéis, compondo uma espécie de clube informal de veteranos sem muito o que fazer senão viver das sobras dessa espécie de subcelebridade militante de Tunico - que chega a ser entrevistado em programa de televisão, pela apresentadora Claudete Troiano.
A trajetória de Tunico se cruza com a de Beto (Ruan Aguiar), jovem quieto, misterioso, que está sempre próximo de algum tipo de desastre - como um que ocorre logo no começo do filme, num parque de diversões. É voyeurismo de tragédias ou Beto tem algo a ver com esses acidentes? Os espectadores do filme logo saberão a verdade, mas isto não altera a tensão crescente do filme, em função da construção de uma narrativa que privilegia os dois atores habitarem seus personagens por inteiro, introduzindo uma sutil pulsão de morte quase nelsonrodriguiana. Um clima que o filme sustenta em sua opção por mostrar imageticamente, mais do que em diálogos, o que os personagens estão fazendo e pensando.
Essa formulação garantiu ao filme a comunicação com o público em Gramado 2025, em que arrebatou o troféu de melhor filme para o júri popular, além dos prêmios de melhor ator (Gero Camilo), direção de arte e desenho de som - valores de produção que potencializam o impacto da história.
