Uma espécie de O Show de Truman para o mundo da conectividade e da inteligência artificial, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra tem uma série de boas ideias mal resolvidas enquanto cinema. Excessivamente movimentado, o longa de Gore Verbinski confunde ação com complexidade, perde a chance de ser mais interessante e desperdiça seu elenco, encabeçado por Sam Rockwell.
O ator interpreta um homem do futuro que chega do nada a uma lanchonete em Los Angeles, e explica que aquilo não se trata de um roubo, mas ele precisa unir pessoas para transformar o presente, para que o futuro não seja horrível, pois tudo deu muito errado. Ele conta que a cultura da selfie e as mídias sociais roubou a dignidade das pessoas, transformando-as em adultos infantilizados.
Para salvar o presente o futuro, ele precisa montar uma equipe. Aos poucos, ele monta esse grupo, e o filme vai dando conta do passado dessas pessoas. Susan (Juno Temple) é a primeira a se voluntariar, carregando um passado que inclui uma grande perda. Já Ingrid (Haley Lu Richardson) é uma rebelde usando um vestido de princesa destruído e, embora seja rejeitada inicialmente, uma casualidade a faz ser aceita no esquadrão, que também inclui, entre outros, dois professores colegiais. Mark (Michael Peña) e Janet (Zazie Beetz), que perderam o gosto pela profissão.
Todos os personagens têm um passado recente relacionado a absurdos tecnológicos. Os professores, por exemplo, não conseguiam mais dar aulas pois os alunos não descolavam os olhos dos celulares. Porém, ao perceber que todos observam a mesma imagem, Mark toca, por acaso, na tela do celular de um dos estudantes, tudo se transforma e eles se tornam rebeldes.
A sátira escrita por Matthew Robinson aborda outros temas, como clonagem e tiroteios em escolas, mas nunca vai além de usar elementos como pretexto para uma ficção científica mais movimentada do que divertida ou complexa. Falta certa densidade ou mais viagem lisérgica para ser, digamos, um Philip K. Dick.
O destino final da humanidade está nas mãos de um garoto viciado em games que passou a vida toda, literalmente, diante de uma tela de computador, a ponto de desmaiar se for tirado de sua mesa. Esta é uma das obviedades do filme, em seu discurso repleto de boas intenções. Ainda assim, as presenças de Rockwell e Richardson impedem que o longa seja um desperdício total. Armado com uma estrutura mais próxima de um videogame do que cinema, o elenco de Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra merecia mais.
