Um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, brilhando no Flamengo e na seleção especialmente na década de 1980, Zico é a estrela do documentário que leva seu nome e que promove o status do famoso “galinho de Quintino” - referência ao físico franzino e ao subúrbio carioca onde nasceu - para “samurai”. Uma licença poética que faz sentido, dada a aproximação do craque carioca com o Japão em sua maturidade.
Dito isso, Zico, o Samurai de Quintino, de João Wainer, abraça o projeto de ser um documentário ameno. Ou seja, dedicando a maior parte de seu espaço à figura inegavelmente afável do jogador, um homem simples que nunca abandonou suas origens, casou com a namorada da adolescência, Sandra, e permanece casado com ela cinco décadas depois, formando uma figura família que gerações mais jovens de craques brasileiros não seguiram, ligados num padrão de vida ostentação e numa incrível sucessão de casamentos e rompimentos midiáticos.
Essa autenticidade é um grande trunfo do filme, que mostra generosamente o ambiente familiar do craque, sua mulher, filhos, colegas e amigos, como Junior, Paulo César Carpegiani, Ronaldo Fenômeno e Carlos Alberto Parreira, e raras imagens em super-8 da família, além de inúmeros gols e lances de jogo que atestam o talento indiscutível do jogador.
Um espaço generoso é dado à passagem de Zico pelo Japão, onde contribuiu exemplarmente para a evolução do futebol naquele país, começando humildemente no time operário da empresa Sumitomo até alçar a posição de técnico da seleção local.
Com passagens como técnico em diversos times europeus como o Fenerbahçe (Turquia), Olympiacos (Grécia) e CSKA Moscou (Rússia), curiosamente Zico nunca foi técnico de seu time do coração, o Flamengo. Na seleção brasileira, também não passou da comissão técnica, sob o comando de Zagallo, em 1998.
Todos esses méritos não poderiam deixar de ser mencionados e certamente louvados. Mas é certo que o documentário se esquiva de temas polêmicos, como a curta passagem de Zico pela Secretaria Nacional do Esporte, no governo Fernando Collor, em que Zico iniciou mudanças legais visando beneficiar os jogadores em sua desigual relação com os clubes. O assunto passa rapidamente numa imagem, sem nenhum comentário do jogador. Isso impregna o documentário de um certo chapa-branquismo, sem que certamente retire seu valor, especialmente para os fãs do futebol-arte de todas as gerações.
