Os Farias são um desses clãs incontornáveis do cinema brasileiro. A dupla Roberto Farias, produtor, roteirista e montador, e Reginaldo Faria, ator, roteirista e músico, que veio brilhando desde os anos 1960, em filmes como O Assalto ao Trem Pagador (1962), Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia (1977) e Pra Frente Brasil (1982), encontra, felizmente, continuidade em sua próxima geração. Regis, Marcelo e Carlos André Faria, filhos de Reginaldo, juntam-se ao pai para compor Perto do Sol É Mais Claro, um pequeno e intenso filme sobre o ato de envelhecer.
Roteirizado e dirigido por Regis Faria, o enredo gira em torno de Rêgi (Reginaldo), oitentão que sofre de um luto recente e se esforça para encontrar novas motivações na vida. Os filhos, Marcelo (Marcelo Faria) e Candé (Candé Faria), têm suas próprias vidas e dificuldades para acompanhar o pai - que de modo nenhum quer cooptá-los num jogo de piedade. Pelo contrário, Rêgi encara uma rotina independente. Faz seu próprio café, se exercita na piscina, toca violão e mantém uma atividade profissional, administrando uma obra. Mas a solidão é um fato e um fardo.
Para alguém como ele, que gosta de ler, pensar em escrever um livro não é um projeto do outro mundo. Mais complicado é dominar a tecnologia. Um dos filhos deu-lhe um computador, mas ele não sabe onde colocou o fio para carregar a bateria. Também luta contra o pesadelo da burocracia bancária, sem conseguir cancelar um cartão da mulher que morreu há meses. Pragmático, volta ao passado e compra fita para usar a boa e velha máquina de escrever, assim a escrita do livro não pára.
Mergulhado numa fotografia em preto-e-branco que injeta um tom intimista, Reginaldo Faria empunha um personagem que tem muito dele mesmo, aos 88 anos bem-vividos, recorrendo a cartazes de seus próprios filmes e aos próprios álbuns de fotografia para compartilhar com a ficção. Mas não se limita a fazer uma autobiografia disfarçada, longe disso. Seu personagem entra em várias viagens, incorporando traços pessoais - como as músicas do filme, das quais Reginaldo é compositor, na maioria das vezes - mas explorando outras nuances.
Este Rêgi é um homem do mundo, alguém que não está disposto a deixar a idade apagá-lo numa nota de rodapé. Ele resiste aos filhos quando tentam fazê-lo desistir de atividades e nisso demonstra uma vitalidade quase rebelde. Só que não.
O episódio mais notável neste aspecto é quando ele conhece Vanessa (Vanessa Gerbelli), atriz que ele vê numa peça e descobre, por acaso, ser filha de um seu ex-sócio, já falecido. Surge um romance malvisto pelos filhos, dada a grande diferença de idade, mas gratificante para ambos. Ligada nas redes sociais, até por necessidade profissional, Vanessa tem algo a aprender, assim como a ensinar a Rêgi.
Enfim, Perto do Sol É Mais Claro é um pequeno filme sobre o envelhecimento, mas não apenas isso. É muito mais sobre a trajetória de alguém disposto a continuar vivo, aberto a todas as suas forças e possibilidades enquanto o coração estiver batendo. O que é a mais clara definição da dignidade.
Acompanha a entrevista de Reginaldo Faria e Régis Faria no YouTube
