Para seu novo filme como diretor, Eu Não Te Ouço, Caco Ciocler parte de uma quase anedota da política na vida cotidiana, acontecida pouco depois das eleições presidenciais de 2022, quando um sujeito se pendurou no para-brisa de um caminhão ao tentar impedir que o veículo atravessasse um protesto de bolsonaristas na a BR-232, em Caruaru (PE). O Patriota do Caminhão, como ficou conhecido o o comerciante Junior Cesar Peixoto, se tornou même e agora, filme.
Ciocler parte desse episódio, em certa medida cômico, e faz um falso documentário sobre o diálogo de surdos do motorista e o patriota, ambos interpretados por Márcio Vito. Há, obviamente, o potencial em explorar o ridículo da situação, mas não há, no entanto, material para os parcos 60 minutos do longa. Um curta, de uns 20 minutos, seria mais potente e não giraria em falso como o que vemos agora na tela
Ciocler, que não aparece na tela, é um entrevistador dentro da cabine do caminhão, filmando o motorista (que se diz “nem de esquerda, nem de direita”), quando o sujeito se pendura na dianteira do veículo. Do susto inicial, o risível domina o que se segue, com as falas óbvias do patriota: “O Brasil vai se transformar numa Venezuela”, “Vocês estão destruindo o Brasil” e afins.
Tudo engraçadinho, mas repetitivo. Não tem muito para onde ir. Fica a sensação de que um documentário, em busca das figuras reais, teria muito mais a dizer do que essa ficção a partir dos acontecimentos. Certamente o roteiro de Ciocler, Vito e Isabel Teixeira, tenta cobrir lacunas do que se sabe, mas repete chavões sobre visões políticas superficiais.
O que o filme tem a dizer sobre os dois personagens serem intepretados pelo mesmo ator? Não fica claro. São duas faces da mesma moeda? São duas figuras iguais num país polarizado separadas por um para-brisa? Nesse sentido, talvez uma ficção menos experimental, digamos, teria mais a dizer.
O embate entre motorista e o outro sujeito domina o filme, mas não vai além disso. A sensação é mesmo que a narrativa foi mais longe do que poderia, o material não sustenta uma hora, resultando numa espécie de filme de uma piada só. É muito fácil ridicularizar algo que já é ridículo por natureza, e, assim, não ilumina o fato, a política nacional, nem o divisionismo que tomou o país. Para usar uma expressão do filósofo brasileiro Paulo Arantes, esse é um filme que “arromba portas abertas.”
