O Rei da Internet é um filme com profunda crise de identidade. Por um lado, quer contar a história de uma figura nacional, por outro, não consegue se livrar do peso de clichês formais do cinema estadunidense, sendo assim, incapaz de destacar as particularidades do cenário onde a trama se dá.
Com aspirações a O Lobo de Wall Street brasileiro, o filme escrito e dirigido por Fabrício Bittar, patina em sua própria empáfia de se levar a sério demais, chegando a inexplicáveis 135 minutos, numa narrativa pensada para a geração Tik Tok, picotada, acelerada e com excesso de narração - uma vez que o filme não se resolve imageticamente, precisa de uma espécie de muleta verbal para seguir em frente.
O personagem-título é Daniel Nascimento, hacker famoso, que antes de chegar aos 18 anos já acumulava dinheiro e crimes. Ele é interpretado por João Guilherme, ator esforçado num papel que está preso a vícios formais e falta de personalidade, acumulando estereótipos sem levantar voo. Do adolescente aborrecido e aborrecente aos comentários supostamente engraçadinhos para a câmera, quebrando a quarta parede, nada traz algo de particular a esse personagem.
Com esse estratagema, o filme facilmente constrói seu discurso de colocar Daniel mais como uma vítima da sua ingenuidade do que um criminoso. Ele, menino branco de classe média, é só cheio de ideias que são podadas pela lei. Num compasso de um moralismo descompassado, premia-se o hacker num filme no qual inexiste ambiguidade e celebra-se o excesso.
Bittar, que tem no currículo filmes como Como se Tornar o Pior Aluno da Escola, protagonizado por Danilo Gentili, pouco se interessa nas possibilidades mais básicas do cinema. Da fotografia à montagem, tudo nega a oportunidade do trabalho do perímetro de uma tela de cinema. Com seus excessos e elogios ao comportamento de Daniel – seja como hacker, ou como ser humano –, O Rei da Internet faz, involuntariamente, um retrato da masculinidade tóxica.
