Os vampiros do longa brasileiro Love Kills habitam o centro de uma São Paulo noturna, e são figuras típicas do presente em seu gosto por espaços instagramáveis e baladas. Mas esse comportamento esconde a idade de séculos de Helena (Thais Lago), uma vampira em crise existencial de sua longuíssima existência, contrariada por seu destino de ter de sugar o sangue de inocentes (ou nem tanto) para sobreviver.
A personagem, originária da HQ homônima de Danilo Beyruth, se inscreve na tradição de releitura da figura dos vampiros a partir da contemporaneidade. Em outras palavras, está mais próxima da subjetividade da pós-modernidade de um Lestat do que daquele momento de sedimentação do capital que deu origem ao Drácula de Bram Stoker. A existência de Helena está mais ligada à ausência de narrativa histórica (como um fenômeno do presente, e não um “problema” do filme em si), ao invés de uma época por certezas como no século XIX.
Assim, a diretora e roteirista Luiza Shelling Tubaldini encontra na personagem uma gama de possibilidades de retrato de geração – uma bem paulistana, que precisa desviar da cracolândia, por exemplo, enquanto se move pelo centro da cidade. Os jovens e adultos, aliás, que vivem em situação de rua são ameaças com as quais é preciso negociar.
Marcos (Gabriel Stauffer) é um garçom que veio do interior para a capital após a morte do pai, e é explorado e maltratado pelo dono do bar, Ronaldo (Marat Descartes), que lhe deu um emprego por ser amigo da família. Aparentemente, a única cliente do local, que fica aberto 24h, é justamente Helena que, toda noite, senta-se na mesma mesa e pede uma xícara de café.
Não é surpresa que ele vai se apaixonar por ela, e ela por ele, mesmo que a vampira não admita a princípio. Ao mesmo tempo, Helena é perseguida por uma gangue de vampiros que aguardam a chegada de uma grande entidade do mal. Ela tem como único amigo o vampiro twink Victor (Flow Kountouriotis), ricaço que vive uma relação dúbia com a mulher a quem chama de mãe.
Nesse elenco de personagens, Shelling Tubaldini transita nos tropos de vampiros do século XXI, e, ao criar toda a mística para essas personagens, o filme deixa de lado a atmosfera e se perde em excessos de explicações e detalhes. Estes, embora ajudem a construir a história desses vampiros, pouco contribuem à narrativa em si, que tem outras subtramas como penduricalhos (uma envolvendo Ronaldo é completamente descartável, por exemplo).
A fotografia de Jacob Solitrenick, como sempre, é um dos pontos altos da estética do filme – especialmente nas tomadas noturnas da cidade. E Lago e Stauffer dão o sangue pelos personagens, com o perdão do trocadilho, por isso é uma pena que o longa se perca a certa altura encantado demais consigo próprio.
