O novo filme da dupla Glenda Nicácio e Ary Rosa já começa com o título quilométrico Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada, que vem de um ditado popular. Já é a chave do bom humor que marca o filme, que tem como mote o encontro entre estranhos, e, assim, em sua própria forma transita entre gêneros, conectando mundos cinematográficos.
Henrique Garcia (Rodrigo Pandolfo) é um cineasta paulistano, badalado e arrogante. Reverenciado por ter ganhado uma Palma de Ouro, ele termina seu novo filme, que não tem muito orçamento, apesar da fama dele. Um defeito na cena final, só percebido tempos depois da filmagem, traz um problema que, para ele, só seria resolvido com uma refilmagem, mas não há dinheiro para isso.
A oportunidade surge quando é convidado a dirigir a turnê de um artista baiano, o cantor de pagotrap Cristian Mugunzá (Renan Motta), o que Henrique recebe como uma afronta. Afinal, ele é praticante da mais alta cultura, e não se renderia a manifestações populares. Mas o dinheiro fala mas alto.
O roteiro de Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada, assinado por Ary, combina números musicais com drama e comédia. A primeira música, por exemplo, é uma sátira a Cantando na Chuva, protagonizada por Pandolfo. As apresentações seguintes entram de forma orgânica, afinal a trama se passa, exatamente, no universo do espetáculo, com muito colorido, brilho e drag queens, e todas têm seu momento de destaque.
Mesmo assim, o centro do longa é Henrique em sua jornada de, digamos, uma abertura a culturas que não a sua. Pode parecer um mote simples, mas, diante da xenofobia contra a cultura nordestina, que existe no sudeste, o filme toca num ponto central do Brasil contemporâneo. A transformação do personagem se dá exatamente em sua construção: começa como uma figura caricata e, aos poucos, é humanizado, passando pelo processo de descoberta do outro como um igual, e, ao mesmo tempo, particular. É um exame de consciência que, aliás, faria muito bem a diversas pessoas ligadas à produção de cultura no Brasil.
