O cinema iraniano é, claro, conhecido, reverenciado e premiado, enquanto a produção Iraquiana, no entanto, não é muito grande e pouco circula. O Bolo do Presidente é uma feliz exceção, numa inesperada coprodução com o Catar e os Estados Unidos. Grande vencedor da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo em 2025, o longa também venceu o Caméra D’or, em Cannes, concedido a cineastas estreantes, além de ser o escolhido do Iraque para representar o país no Oscar.
O roteirista e diretor Hasan Hadi buscou a ideia para o filme em suas lembranças de infância, quando o país era governado por Saddam Hussein, e, todos os anos, a professora sorteava nomes de crianças, que trariam os mais diversos itens, desde um bolo para o presidente a produtos de limpeza. O cineasta conta que sua família ficou aliviada quando ele foi escolhido apenas para trazer flores.
A pequena protagonista do longa, Lamia (Baneen Ahmad Nayyef), não tem a mesma sorte. Ela é sorteada para fazer um bolo para celebrar o aniversário de Hussein. Não é que ele visitaria a pequena escola, mas as crianças são obrigadas a comemorar a data por imposição dele. Num país marcado pela violência, opressão e falta de mantimentos, ela precisa encontrar os ingredientes para fazer a iguaria.
Ao lado de sua avó, Bibi (Waheed Thabet Khreibat), a pequena Lamia sai em busca dos ingredientes, levando junto Hindi, seu galo de estimação. E, no caminho, encontram Saeed (Sajad Mohama Qasem), seu colega de escola incumbido de levar frutas e que tenta roubar alguém para comprar as frutas.
Pegando carona com diversos veículos, eles cruzam com pessoas nas mais diversas situações. É um retrato vívido do Iraque do passado, mas que ainda reverbera num país assolado pela herança do regime de Hussein, que traz consequências até hoje. Os diálogos vívidos garantem força à narrativa, que encontra sua complexidade a partir de situações e personagens simples.
Uma combinação de Charles Dickens, Neorrealismo italiano e o próprio cinema iraniano fornecem a Hadi uma base que ele organiza a partir de suas memórias e identidade iraquiana, sem deixar de dar uma piscadela à cultura ocidental. O roteiro passou pelo laboratório de Sundance, e conta com nomes como Chris Columbus, Marielle Heller e Eric Roth, na produção executiva, o que pode explicar algumas concessões do longa, mas nada que diminua seu impacto ou a atuação marcante da pequena Nayyef.
