O fascínio de uma história de 3.000 anos fala por si só. Chegando às telas em mais uma ambiciosa superprodução cinematográfica, dirigida por Christopher Nolan, esta versão do poema épico de Homero chega às telas com tudo o que a modernidade pode oferecer: toda rodada em IMAX, com uma novíssima geração de câmeras, efeitos especiais, grandes elencos estrelados.
Num filme assumidamente grandiloquente, o desafio é criar um mundo vital, vigoroso, em que as pessoas se comportem como gente, não como meros arquétipos. E isto começa a partir do protagonista, Odisseu (Matt Damon) - o nome grego, original, do herói conhecido como Ulisses na tradição latina. Odisseu é um herói em conflito com seus próprios feitos militares, que culminaram na vitória na guerra de Tróia. Mas ele rapidamente percebe ali a extensão da violência, do massacre e da traição dos valores mais caros à própria civilização grega - e o filme insere uma pergunta se ela, a própria civilização, poderá sobreviver. Uma pergunta sob medida aos tempos modernos e belicosos, atestando a imortalidade da obra de Homero.
Este não é o único conflito de Odisseu, que o filme acompanha em sua longuíssima jornada de volta ao seu reino, Ítaca, onde sua mulher, Penélope (Anne Hathaway), e seu filho, Telêmaco (Tom Holland), o esperam incansavelmente - acossados por uma corte de pretendentes à mão da rainha, que ocupam os salões do palácio, desfrutando da riqueza real, à frente dos quais o ardiloso Antínoo (Robert Pattinson).
No mar, em seu caminho de volta, Odisseu desafia a lógica, a prudência, o bom senso e também os deuses, sacrificando aos poucos seus fiéis soldados, no mais puro retrato da ambição desmedida do líder macho alfa. Nessa jornada, o filme oferece algumas de suas melhores sequências visuais: o enfrentamento com o gigante-ciclope Polifemo numa caverna; as inúmeras tempestades no mar; outro confronto com gigantes de armadura numa ilha; e a espetacular passagem pelo Hades, o reino dos mortos, onde Odisseu deve confrontar-se com as vítimas de seu personalismo, como o soldado Sinon (Elliott Page), cujo sacrifício foi essencial ao sucesso do episódio do cavalo de Tróia, outra sequência extremamente envolvente, cujo conteúdo ético não é esquecido. Afinal, tratou-se de uma ardilosa traição.
Nessa sequência do transporte do cavalo, aliás, Nolan insere uma bem-vinda nota realista, ressaltando que os homens ali escondidos ficaram mergulhados em seu próprio suor e urina até que a armadilha fosse bem-sucedida. O toque mágico, que não poderia faltar, está nas aparições da deusa Atena (Zendaya), símbolo da sabedoria, com quem Odisseu dialoga em cena. Ela é a consciência que foi ultrajada no episódio troiano.
Outras bem-vindas reflexões remetendo à modernidade aparecem, por exemplo, numa fala feminista de Penélope com o filho. Ela que, pelas leis vigentes, não pode ser rainha sem um rei, mas pode ser substituída pelo filho, um quase adolescente, o faz ouvir seu protesto de que toda a sua sabedoria e experiência valem menos do que a penugem da barba incipiente do filho. Por isso e também por detalhes como a diversidade étnica do elenco - Helena de Tróia é interpretada pela atriz negra Lupita Nyong’o -, surgiram críticas de que Nolan teria feito aqui um filme “woke”. Mas não se trata disso.
Adaptar uma obra histórica sem modernizar seus sentidos, suas interpretações para o público de hoje, não faria o menor sentido. E o diretor, que também assina o roteiro, assume essa responsabilidade sem esquecer por nenhum momento a intenção de proporcionar um espetáculo cinematográfico de primeira, para encher os olhos, sacudir o coração, sem abrir mão de dialogar com o pensamento. E o pensamento central é este: será que, após tantas guerras e massacres, a civilização pode voltar a existir ? Ou cada geração vai continuar a esquecer sempre os erros da anterior?
No aspecto técnico, ressalte-se ainda a renovada parceria de Nolan com seu diretor de fotografia, Hoyte Van Hoytema, e o compositor Ludwig Göransson, na trilha sonora. E não se pode esquecer a escolha perfeita dos cenários, filmados na Grécia, Marrocos, Itália, Escócia, Islândia e Malta.
