Em certo de momento de Cinco da Tarde, suas duas personagens principais, adolescentes convivendo durante a pandemia, dançam enquanto os Paralamas do Sucesso cantam “a vida não é filme, você não entendeu.” Será mesmo que a vida não é filme? Mas um filme pode capturar a vida? Escrito e dirigido por Eduardo Nunes, o longa é um retrato delicado de uma dialética entre vida e luto, e todos os tons de cinza que existem entre os extremos.
Num cinema marcado pela particularidade formal, Nunes realiza filmes nos quais o tempo se dilata, uma experiência que se tornou palpável para boa parte da população mundial durante o lockdown entre 2020 e 2021. Embora a narrativa seja situada durante a pandemia, essa não é uma história de pandemia, é sobre as redescobertas a partir da perda.
Anabel (Bárbara Luz) vivia com a avó (Analu Prestes) até a morte desta, deixando a garota desnorteada. Num momento de particular aflição, ela encontra Mieko (Sharon Cho), adolescente da sua idade com quem tem pouco contato, embora morem no mesmo prédio. A partir daí, surgem laços de afeto inesperados entre as duas, vivendo num mundo marcado pela perda e a ausência. A mãe de Anabel, por exemplo, é uma ausência que se materializa apenas em chamadas telefônicas. Já a mãe (Miwa Yanaguizawa) da outra garota aparece de uma forma quase espectral.
Fantasmagorias, alias, são centrais no filme de Nunes: do belo preto e branco da fotografia de Mauro Pinheiro Jr, à avó morta que interage com a neta. Esse é um momento real no filme, mas os fantasmas de um país mergulhado num luto coletivo difícil de lidar é o espectro mais forte no longa.
Em sua obra, com os longas Sudoeste e Unicórnio, Nunes investiga como as crises existenciais de personagens femininas as tornam estranhas em seu próprio mundo. Em Cinco da Tarde, o cineasta desfamiliariza o luto a partir dessas duas personagens, marcadas por busca de conexões em meio a um mundo que nunca foi tão concretamente apocalíptico.
