Romance essencial de um novo momento da literatura LGBTQIAPN+ no Brasil, Quinze Dias, publicado em 2017, chega ao cinema num filme pautado pela honestidade e o carinho por seus personagens e suas histórias. Com direção de Daniel Leiff, a adaptação do livro de Victor Martins segue a tradição de filmes voltados para o público juvenil como Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, lançado em 2014.
Felipe (Miguel Lallo) é um narrador-personagem complexo, ao mesmo tempo que não se poupa (e não nos poupa) de nada. Ele é um adolescente cruel consigo mesmo, algo que ele disfarça sob um verniz de ser sincerão. Seu peso, motivo de chacota na escola, ele assume, logo de cara, chamando-se de gordo (não é fofo, nem gordinho). Essa honestidade é desarmante. Mas, ainda assim, ele coloca armadilhas, especialmente, emocionais para si mesmo.
Quando pequeno, adorava piscina mas, desde um episódio de bullying, ainda criança no seu prédio, nunca mais quis entrar em uma. Sua mãe meio riponga, Rita (Débora Falabella) é a maior incentivadora do filho, mas, ao mesmo, tempo, com ela ele se parece se fechar num mundo de proteção. Isto se abala com a chegada de Caio (Diego Lira), filho da vizinha que Rita hospeda em seu apartamento por 15 dias, enquanto os pais dele viajam. Parece um elemento narrativo meio forçado um adolescente adulto não poder ficar em seu apartamento sozinho, mas, mais tarde, virá uma explicação convincente.
Melhores amigos quando crianças, Felipe e Caio se afastaram depois do episódio da piscina, e são completamente diferentes. O primeiro é assumidamente gay, gosta de coisas coloridas, músicas e divas pop. O outro gosta de ler Senhor dos Anéis, futebol e parece ter uma namorada, até que a verdade vem à tona – ele também é gay, mas não se assumiu para o mundo por medo da reação dos pais (Mariana Santos e Silvio Guindane).
Com roteiro de Vitor Brandt e Ray Tavares, Quinze dias se firma em sua criação dos personagens queer vivendo suas vidas sem que isso se torne a questão central delas ou do filme. Discute questões sérias como homofobia e gordofobia (embora pudesse também se aprofundar no tema do racismo, afinal Caio é negro), sem fazer desses temas sua razão se ser. A beleza está em trazer isso para a vida e falar sobre preconceitos a partir da narrativa, e não vice-versa.
Com um visual vibrante, o longa transita entre gêneros, da comédia ao drama, passando pelo musical. Os diálogos nem sempre são sutis, mas isso não chega a ser um problema, afinal, adolescentes não costumam ser sutis mesmo.
Embora Lallo e Lira se destaquem, com carisma e sagacidade nos papeis principais, alguns dos melhores momentos pertencem a Falabella, como a mãe divertida e amorosa. Mas quem rouba a cena é a talentosa Mika Soeiro, como a melhor amiga de Caio, a quem Felipe confunde como namorada. Sua presença no filme é luminosa.
