08/07/2026
Terror

Herança de Narcisa

Depois da morte da mãe, Ana volta à antiga casa da família para esvaziar o imóvel que pretende vender. Mas os fantasmas do passado conturbado ao lado da mãe vedete não a deixarão em paz. Nos cinemas.

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Depois de viver Heleninha Roitman em Vale Tudo, Paolla Oliveira está novamente numa história de uma personagem com problemas com a mãe. Desta vez, Narcisa – interpretada por ela mesma em flashbacks – no longa de terror Herança de Narcisa, escrito e dirigido por Clarissa Appelt e Daniel Dias.

No presente, a atriz interpreta Ana, uma chef, que volta ao casarão de sua infância e onde Narcisa morava sozinha até sua morte. A ideia da protagonista é esvaziar e arrumar a casa, para a vender e dividir o dinheiro com o irmão, Diego (Pedro Henrique Müller). No entanto, fantasmas do passado e do presente parecem impedi-la de seguir em frente. 

O passado conturbado é marcado pela presença da mãe, uma vedete e cantora de sucesso (com o hit “Para minha mãe”, título bem irônico dentro do filme) , que asfixia e domina a filha. A limpeza da casa é um reencontro com o passado e uma tentativa de redimir o presente, mas Ana parece estar presa demais à influência da mãe, mesmo renegando esse fato. 

A chegada de Diego mais perturba do que ajuda. Meio bicho- grilo moderno, o rapaz não tem casa, vive de viagens, não se importa com dinheiro e insiste que a irmã não venda a casa, more ali e abra um restaurante, como se tudo fosse fácil. Ele é o contraponto sonhador e irritante do pragmatismo de Ana.

Herança de Narcisa é um filme sobre mulheres e protagonizado por elas – tanto que o único personagem masculino precisa ser descartado logo, para que a dinâmica entre Ana e Narcisa se materialize de forma ainda mais forte. O embate, mais do que entre passado e presente, é sobre visões de mundo e maneiras de viver o feminino. Enquanto a mãe era uma artista e uma mulher livre, a filha sofre e se martiriza em sua solidão e falta de perspectivas. 

De certo modo, o filme pensa como o Brasil vive um momento de regressão – em especial aos direitos das mulheres, sempre ameaçados, basta ver as recentes críticas ao voto feminino, chegando ao absurdo de algumas pessoas contestarem publicamente esse direito. É como se, no passado, Narcisa pudesse exercer sua liberdade e sexualidade de forma mais livre do que Ana, vivendo num país atormentado com a ascensão do neopentecostalismo e do conservadorismo.

O terror psicológico permite exagerar certos elementos a ponto de escancarar as contradições sociais, como bem acontece aqui, na direção certeira de Appelt e Dias, que constroem a atmosfera de opressão de maneira precisa, com uma direção de arte caprichada. 

Oliveira, por sua vez, transita entre duas personagens de forma madura, construindo um díptico entre opressão e liberdade, pautado por fantasmagorias. Só faltou uma cena dela bêbada pedindo para tocar um “Para minha mãe” frenético, bem caliente, como faria Heleninha – enfim, nem tudo é perfeito. 

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