Vencedor de dois prêmios no Festival do Rio 2025 - melhor ficção e direção de arte - Pequenas Criaturas, primeiro longa solo da diretora Anne Pinheiro Guimarães, focaliza uma família e um país em transição.
O ano é 1986. A volta à democracia no Brasil é novinha em folha e há muitas dúvidas no ar de como tudo irá funcionar, apesar da empolgação. A família formada por Helena (Carolina Dieckmann) e os filhos André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello) acaba de mudar-se para Brasília e, como a nova democracia, sente-se um pouco deslocada, apesar da incrível paisagem modernista e futurista e dos amplos espaços da capital.
O marido Luiz (Michel Melamed) é uma ausência pouco explicada. Estaria em viagem de negócios, mas a distância soa mais como o ensaio de uma separação. Enquanto isso, Helena pensa e fuma, fuma e pensa, presa numa hesitação dolorida.
O adolescente André enfrenta seus primeiros desafios com o bullying de uma turma local. A solidão dói mais nele do que no irmão caçula, Dudu, que se refugia na fantasia ostentando uma cabeça de Rei Leão e empreendendo aventuras imaginárias. Uma distância de gerações também separa os irmãos, apesar do destino comum.
Aos poucos, outros personagens interagem com a família, como a vizinha Ângela (Letícia Sabatella) e um forasteiro, Carlos (Caco Ciocler), com quem Helena ensaia alguma comunicação. Mas a opção do roteiro é mesmo que Helena permaneça afásica, solitária, ensimesmada, pouco afeita a uma decisão ou ruptura - o que pode ser descrito como a principal falha do roteiro, tornando a personagem um pouco monocórdica, faltando nuances. Pior ainda é o episódio com a cachorra, absurdamente inconsistente, parecendo forçado para produzir uma metáfora que, afinal, não pára de pé.
Por conta disso, os personagens adolescentes e infantis tornam-se bem mais interessantes e vívidos, com as descobertas feitas por André com um novo amigo e vizinho (Acauã Alves), alguns perigos corridos pelo cativante Dudu, culminando num final que flerta com a fantasia de uma forma sutil e interessante, numa festa de aniversário no cenário do Cine Drive-In.
As paisagens de Brasília, aliás, são personagens dessa jornada existencial da família desgarrada, que pode ali encontrar uma outra identidade e destino. Assim como o País que começava a se desenhar na chamada Nova República, embora o filme não mergulhe a fundo nessa veia política. Talvez a hesitação da diretora e roteirista em aprofundar alguns caminhos no perfil da protagonista feminina é que se trata, assumidamente, de uma história autobiográfica. Pode ter faltado, quem sabe, um olhar de fora.
