22/07/2026
Drama Ficção científica

Futuro Futuro

Num cenário de desastre ecológico, um homem sem nome nem memória transita e é acolhido por Sílvio. Rebatizado como K., ele tem acesso a lembranças fragmentadas através do recurso ao aparelho Oráculo - e assim sintoniza com imagens de outro ponto da cidade, mais rico e povoado de altos edifícios. Nos cinemas.

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Futuro Futuro, de Davi Pretto (RS), foi o grande vencedor do Festival de Brasília 2025, levando os troféus de melhor filme para o júri oficial, além de melhor diretor, montagem, roteiro e uma menção honrosa para o ator Zé Maria Pescador. Uma premiação que destacou a invenção e a criatividade de uma distopia que acompanha a saga de K. (Zé Maria), um homem deslocado e sem lugar, num cenário de desigualdade e desastre ecológico, num filme que usa bastante os recursos da IA.

Futuro Futuro sintoniza em chave de distopia o mal-estar profundo do mundo contemporâneo através da trajetória desse protagonista, um homem sem memória, nome, casa, profissão, experimentando o grau máximo de desumanização. 

Acolhido por Sílvio (João Carlos Castanha), sexagenário com quem compartilha uma jornada de exclusão, de vida à margem, K. vai ser confrontado com memórias de uma vida pregressa através do recurso a um aparelho, chamado de Oráculo, que lhe fornece imagens de um outro setor da cidade, rico, povoado de enormes edifícios.

Esta cidade dividida entre estes setores ricos e exclusivos e a cidade empobrecida, em escombros, é o cenário de um filme que recorre extensamente à IA, justamente para recriar estes cenários de uma Porto Alegre cada vez mais segregada, na visão do diretor. 

Na coletiva de Brasília, Davi Pretto explicou ter recorrido à IA para recriar locais onde certamente sua equipe não teria permissão de acesso. A IA foi também uma forma de enfrentar os efeitos da grande enchente que abalou o Rio Grande do Sul em 2024, que paralisou as filmagens por meses e impossibilitou a volta da filmagem ao cenário de um galpão, totalmente alagado e destruído.

Mas, de todo modo, tanto a IA quanto o tema da enchente já faziam parte do roteiro, assinado também por Davi Pretto, desde o começo do projeto. De uma forma quase profética, havia realmente menção a uma enchente neste roteiro antes que ela acontecesse. Mas sua concretização tornou o tema e a filmagem ainda mais dramáticos, já que um evento dessa magnitude não teria como não abalar todos os integrantes da equipe. 

Filmado com baixíssimo orçamento, Futuro Futuro certamente foi um filme único dentro da seleção do Festival de Brasília, por sua procura de atravessamento entre diversos gêneros e sua recusa a integrar uma narrativa linear. De todo modo, o filme insere-se dentro da obra de um diretor que assina longas como Castanha (2014), doc-ficção justamente sobre o ator João Carlos Castanha, aqui novamente integrante do elenco; Rifle (2016); e Continente (2014), todos eles exibidos em festivais internacionais, como Berlim e Sitges, e integrando em sua feitura elementos de filmes de gênero, como terror, de maneira a transgredir seus limites.

Com um elenco integrado também por Gabriela Greco, Carlota Joaquina, Clara Choveaux e Higor Campagnari, Futuro Futuro é o tipo de filme que não alivia a trajetória para o público e pede reflexão para ser decifrado - demonstrando uma coragem de ousar que nem sempre é assumida pelos criadores em geral.

 

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