Como bem deixa claro o título, Ecos do Teatro Experimental do Negro não é, exclusivamente, sobre a companhia fundada por Abdias do Nascimento, que existiu entre 1944 e 1961 e revolucionou o teatro nacional. O documentário de Daniel Solá Santiago não só resgata essa história, como também ressalta como o TEN é influente até hoje.
O filme começa com pessoas ligadas ao teatro contemporâneo, todas pretas e se apresentando dizendo o nome e no que trabalham. Há figuras conhecidas como Zezé Motta e Sidney Santiago Kwanza, mas também uma boa quantidade de gente jovem cujo trabalho só existe hoje graças às barreiras que o TEN rompeu. É uma boa sacada do filme, que volta no tempo a partir de imagens de arquivo e depoimentos marcantes de Ruth de Souza e Léa Garcia, que começaram no grupo e cuja trajetória foi ligada a ele.
Solá Santiago realiza um documentário de fôlego muito bem construído com a montagem afiada de Cristina Amaral, que transita entre tempos e entrevistados e entrevistadas dando a real dimensão da importância do grupo. Figuras como o ator João Acaiabe e a poeta, pesquisadora e ensaísta Leda Maria Martins se destacam ao lado de Lázaro Ramos, por exemplo.
Os debates trazidos ao filme são questões que reverberam muito no presente, tendo ao centro, como não podia deixar de ser, o racismo, e discutindo a prática da black face, que aliás, levou Nascimento a fundar sua companhia, quando viu, em 1941, uma montagem de O Imperador Jones, de Eugene O’Neil, no qual o protagonista negro era feito por um ator branco com o rosto maquiado.
E é bom ouvir os depoimentos de pessoas realmente engajadas e inteligentes, que têm muito a acrescentar. As memórias de Ruth e Léa são divertidas e comoventes, narradas com muito vigor e entusiasmo, enquanto Martins traz muito sobre as questões históricas, artísticas e estéticas do TEN e o legado que deixou hoje.
Solá Santiago, que assina o roteiro com Christian Dura, acerta ao fazer um filme afetivo que homenageia e apresenta Abdias e seu trabalho a um público contemporâneo que pode desconhecer sua importância. É, ao mesmo tempo, uma celebração da arte teatral, mas também um chamado, alertando que muita coisa mudou, mas ainda resta muito a mudar.
