A diretora argentina Lucrecia Martel compõe um documentário impactante e muito diferente de seu estilo habitual em Nossa Terra, em que ela acompanha o julgamento de três homens, dois deles ex-policiais, acusados de assassinar um indígena e ferir outros três, na comunidade Chuschagasta, na província nortista de Tucumán, num incidente de disputa pela terra, que se arrastava há nove anos.
Lucrecia entra no assunto de maneira quase cirúrgica, acompanhando com sua câmera os dois lados chegando ao tribunal, desdobrando, aos poucos, os detalhes do enfrentamento. Nesse estudo do caso, a cineasta analisa a história da expropriação das terras dos Chuschagasta ao longo dos séculos, num episódio que nós, brasileiros, temos condições de entender muito bem, pela semelhança de casos envolvendo as expropriações de territórios indígenas.
O filme de Lucrecia é uma denúncia e uma oportunidade de dar voz a esses excluídos históricos, vítimas de violência, racismo e de uma aliança sinistra entre vários integrantes do aparato de governo - o acusado do assassinato é funcionário do Departamento de Patrimônio e há outra comissária envolvida. Tudo isso para privar os indígenas de sua terra. Mas eles resistem, inclusive à burocracia que se interpõe como mais um obstáculo para o acesso aos seus direitos.
(Obs. Na Netflix, o filme pode ser encontrado pelo título em inglês, Our Land).
