Clarice Lispector – ou como dizem os e as fãs, simplesmente, Clarice - é um sucesso, na academia, nas livrarias e nas redes sociais. Sem emitir qualquer juízo de valor sobre qualidades artísticas ou literárias, os livros da escritora nascida na Ucrânia que viveu e morreu no Brasil são presenças duradouras nas prateleiras e leitores digitais. Muito mais visibilidade do que, digamos, uma Ligia Fagundes Telles ou uma Hilda Hilst, para ficarmos na mesma geração. O que ela fala, ou como ela fala, que leva as pessoas fazerem parte dessa multidão de devotos?
Rio de Clarice, uma coletânea de curtas inspirados em contos da autora, não é capaz de chegar nem perto da potência editorial ou narrativa da obra dela. A direção geral é assinada por Nicole Algranti, sobrinha-neta de Lispector, e o roteiro é dela e de Teresa Monteiro, autora da principal biografia da escritora e estudiosa de sua obra. Claramente, é um filme reverente aos contos e à aura da obra. O que, no cinema, não é exatamente um ponto positivo.
A escritora já viveu dias mais felizes no cinema com A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral, e O Livro dos Prazeres (2021), de Marcela Lordy. O mesmo não se pode dizer da equivocada adaptação de Luiz Fernando Carvalho para A Paixão segundo G.H.
A principal dificuldade aqui, e isso atravessa os cinco curtas, é ousar, digamos, se livrar da origem literária, interpretando a obra original e a transmutando-a para a linguagem cinematográfica. Todas as diretoras dos filmes esbarram nisso, tentando encaixar uma linguagem literária na forma cinematográfica e, claro, não dá certo.
Um dos curtas, por exemplo, Amor, dirigido por Taciana Oliveira, é uma transposição preguiçosa, na qual uma voz narra quase o conto inteiro ipsis litteris, enquanto se vê na tela a protagonista Hanna (Bia Sion) realizando ações praticamente aleatórias.
O mesmo acontece nos outros curtas, em níveis mais variados. Claramente, as demais diretoras dos curtas – Algranti, Maria Luiza Aboim, Barbara Kahane e Eunice Gutman – não querem desagradar a fanbase, nem desrespeitar a escritora, mas isso torna o resultado enfadonho. As frases poéticas que funcionam no papel parecem forçadas na boca de personagens interpretadas por atrizes como Leticia Spiller, Guida Viana, Letícia Isnardi, Lucélia Santos e Louise Cardoso. No caso das famosas epifanias dos textos de Lispector fica ainda pior – parecem mais uma paródia do que a coisa em si.
Contando praticamente com as mesmas equipes técnicas, os curtas são um tanto indistinguíveis. Todos têm a mesma estética, de uma fotografia que parece coberta por uma bruma, assinada por Viviane Rangel, e uma trilha sonora que vara o filme, de Leonardo Pinto e Tibbor Fittel. Enfim, não há personalidade – algo que há de sobra na obra de Lispector, goste-se ou não de seus textos.
