Ninguém pode negar empenho nem ambição ao realizador Luiz Fernando Carvalho, que trouxe à tela uma adaptação do potente Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar e que dobra a aposta, em termos de ousadia, ao filmar A paixão segundo G.H., um dos livros mais herméticos da escritora Clarice Lispector.
Preparando esta filmagem desde 2017, com oficinas com especialistas em literatura e filosofia para sua equipe, Carvalho, mais uma vez, atém-se à fidelidade ao texto original - como em Lavoura Arcaica -, ainda que recorra a uma roteirista, Melina Dalboni.
O filme se nutre da beleza magnética da atriz Maria Fernanda Cândido, envolta num figurino cuidadoso de época (anos 1960), no cenário de um apartamento elegante e bem-mobiliado, em Copacabana, que destaca a profissão da protagonista, escultora.
Por quase toda a duração do filme (2h), ouvimo-la falar de seus homens e também de suas desilusões, ela que tem uma vida social intensa mas, ainda assim, insatisfatória.
A crise pessoal se acentua pela partida da empregada, Janair (Samira Nancassa), até aqui uma ferramenta indispensável para a manutenção da rotina deste mundinho em bolha em que vive G.H.
Que curiosidade a leva ao quartinho apertado de Janair, em que o mobiliário despojado, quase inexistente, situa sem rodeios a distância de classe entre estas duas mulheres? Ali, duas surpresas aguardam G.H.: os desenhos a carvão na parede branca e uma barata viva no guarda-roupa. O inseto, como sabem os conhecedores do livro, é o instrumento desencadeador de um dos episódios mais radicais do texto.
A crise existencial de G.H., descrita com tantos detalhes pelo constante solilóquio da protagonista, mostra-se um mergulho com poucas chances de despertar empatia. Como é que se conecta com alguém tão artificial, tão à parte da vida cotidiana da maioria das pessoas?
Não, a culpa não é de Clarice, nem de suas palavras cristalinas, de seu fluxo de pensamento que, no texto, mostra-se capaz de conduzir o leitor ou leitora a um mergulho nos próprios sentidos, nas próprias sensações. O mesmo texto complexo, quando ouvido aqui, não tem a mesma repercussão - e aí mostra-se a artificialidade da opção pela fidelidade extrema -, uma vez que o ritmo dos acontecimentos no cinema é completamente diferente, depende de imagens, dramatização, sonoridades - e nem o choque propiciado pela participação da barata é capaz de romper isso.
Ao ler o texto, a sugestão à imaginação pelas palavras hipnóticas de Clarice é imediata. No cinema, mediada pela imagem, a obra não atinge a mesma temperatura. A duração, nesse contexto, sente-se excessiva. E quem sabe, por isso, o filme de Carvalho reforçará a tese de que a obra de Clarice seria Infilmável - o que não é bem verdade, quando lembramos de A Hora da Estrela, de Suzana Amaral (1985) e também de O Livro dos Prazeres, de Marcela Lordy (2021), que se despregaram um pouco das páginas de Clarice para adaptá-las a outro meio e, por isso, se deram melhor, especialmente ao compor personagens de carne e osso.
