As narrativas apocalípticas que vemos hoje, de maneira consciente ou não, nascem do denominador comum das bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki em 1945. Não é de se espantar que um anime nesse tema seja permeado por esse trauma histórico. Lançado há quase 40 anos, Akira é influente e relevante até hoje. Baseado na série de mangá escrita e ilustrada por Katsuhiro Otomo, o longa figura a ansiedade do capitalismo tardio no Japão sob o prisma da memória coletiva da guerra e da tragédia.
Tal qual Godzilla, mas em outra chave, Akira se passa num mundo caótico em busca da ordem e da reconstrução. Aqui, Tóquio é engolida, logo nas primeiras imagens, situadas em 1989, por um domo brilhante, e se tornará a Antiga Tóquio. A Neo-Tóquio, mais de 30 anos depois da 3ª Guerra Mundial, é dominada por gangues de motoqueiros. Tetsuo, protagonista do longa, faz parte de uma delas. O outro protagonista é Kaneda, e os dois se conheceram ainda no orfanato.
Nessa cidade destruída, habitada por figuras abandonadas à própria sorte (como muitas crianças no país, depois da 2ª Guerra), uma elite tecnocrata protege seus interesses e a manutenção do poder, enquanto os demais habitantes sofrem com condições precárias, violência e abuso policial. A juventude, sem perspectivas, encontra nas gangues os laços de afeto e proteção que a própria sociedade lhes nega.
Tetsuo tem habilidades psíquicas, e pessoas como ele são conhecidas como “espers”. Akira, o esper responsável por destruir a antiga cidade, possuía os mesmos poderes, por isso, o protagonista é visto como uma ameaça. A trama se desenvolve em torno disso, mas, para além da complexidade narrativa, o que mais chama a atenção no longa dirigido por Katsuhiro Otomo são seus traços e a riqueza de detalhes na construção de cada quadro.
No final dos anos de 1980, Akira olhou para o seu presente, na década dos excessos e do colapso do capitalismo tardio revigorado pelo neoliberalismo. A tecnologia se torna, mais do que nunca, ferramenta de opressão e controle, e o cyberbpunk representa esse mundo de alienação e horror. Após uma visita a Hiroshima em 1959, o filósofo alemão Günther Anders apontou que “Hiroshima está em todo lugar.” Neo-Tóquio, também – até hoje.
