O cineasta britânico Martin McDonagh injetou seu melhor veneno sarcástico nesta ótima trama profundamente política, ambientada no Chile de 1973, às vésperas do golpe militar de Augusto Pinochet.
A situação é acompanhada pelo ponto de vista de dois agentes da CIA, Chris (John Malkovich) e Lee (Sam Rockwell), que justamente estão no Chile operando na desestabilização do governo recém-eleito do socialista Salvador Allende - um dos muitos golpes que a CIA promoveu pelo mundo, como no Congo em 1960 e na Guatemala em 1954. Chris, o mais veterano entre os dois, carrega uma memória fragmentada de todos estes golpes de que participou, o que tem a ver com a deterioração de sua saúde, por conta de um câncer terminal. Por isso, ele se apressa a gravar suas memórias num ditafone, o que inquieta seu chefe, MJ (Steve Buscemi), temeroso de que ele revele segredos inconvenientes - um deles, relativo ao assassinato de John Kennedy.
Como sempre nos filmes de McDonagh - como os brilhantes Na Mira do Chefe e Três Anúncios para um Crime - , a morte tem um peso dentro da história, não só pela doença de Chris como pelo permanente clima de suspeita entre os próprios agentes - entre os quais há um pacto misterioso, cujo epílogo deve se dar na Ilha de Páscoa, num belo cenário de montanhas verdejantes, repletas dos Moai (as esculturas de cabeças feitas pelos indígenas Rapa Nui) e cavalos selvagens soltos pelo lugar.
A grande qualidade de McDonagh como diretor e roteirista é justamente esta precisão nos diálogos, sempre na ponta da faca, afiadíssimos, infiltrando o humor em situações em que aparentemente ele não surgiria - mas explode a toda hora. Para isso, contribui o entrosamento perfeito entre os atores, com um jogo afinado entre Malkovich e Rockwell, que oscila entre diversos sentimentos e humaniza dois indivíduos que são claramente vilões e assassinos, mas tem suas nuances, sem que com isso o filme pretenda, evidentemente, tentar absolvê-los. Nem se esperaria isto de um diretor refinado como McDonagh, ainda mais num filme produzido pela engajada dupla chilena Pablo e Juan de Dios Larraín.
Cavalo Selvagem Nove certamente mergulha no passado para comentar o presente - afinal, os poderosos de hoje não mudaram suas táticas sujas para dominar o mundo. E nisso está uma de suas forças, além da potência de seu elenco, com atores no auge de sua forma, como Malkovich (vencedor da Copa Volpi de atuação em Veneza), Rockwell e Buscemi, com direito a uma ponta descolada de Tom Waits, no cenário do Monument Valley, remetendo a tantos faroestes. Afinal, o jogo da CIA nunca deixou de parecer-se com um interminável faroeste.
