21/10/2026
Drama

O Outro Lado das Redes

Frances Haugen é uma engenheira no Facebook apaixonada por seu trabalho e pela rede social. No entanto, ela descobre que os donos da empresa estão manipulando os algoritmos de maneira a influenciar os usuários. E então decide colaborar com um repórter investigativo do jornal "Washington Post", que levantará toda a história. Nos cinemas.

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Entre outras coisas, O Outro Lado das Redes mostra como um diretor pode fazer toda diferença para um filme. Sequência de A Rede Social, o longa é dirigido por Aaron Sorkin, que também assina o roteiro, assim como do anterior, que foi dirigido por David Fincher – esse sim um cineasta mais consciente das possibilidades e ferramentas do cinema na construção não apenas da obra como narrativa, mas também como forma cinematográfica.

Os roteiros de Sorkin – que incluem Steve Jobs e A Grande Jogada – são verborrágicos, nada sutis e parecem desconfiar da capacidade de compreensão do público, por isso a necessidade sentida de
precisar explicar tudo muito claramente. Fincher, com sua elegância e sagacidade, consegue reverter isso e superar as limitações, coisas que não acontecem aqui. O longa parte de assuntos já um tanto datados, embora ainda relevantes, para dizer o óbvio: as redes sociais são manipulativas, fazem mal à saúde mental e Mark Zuckerberg tem um lado muito claro, que não é nada progressista.

No fundo, O Outro Lado das Redes é mais sobre o trabalho do jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White, bastante bem no papel) investigando as denúncias de uma funcionária do Facebook (a empresa ainda não se chamava Meta) sobre o lado sombrio da empresa e de suas redes sociais. Mikey Madison, em seu primeiro trabalho depois do Oscar de Anora, não tem muito o que fazer no papel da denunciante Frances Haugen, engenheira e cientista de dados que trouxe à tona documentos reveladores em 2021.

Muita água já passou debaixo da ponte da história – e está passando, haja vista o papel da Meta nas eleições brasileiras atuais –, para o que se vê na tela soar como novidade, embora o alarmismo seja perene. Assim, o longa tenta ser algo mais na veia de Rede de Intrigas ou Todos os Homens do Presidente, sem, obviamente, alcançar o nível de denúncia ou potência daqueles dois longas.

Sorkin gosta da grandiloquência mais do que da construção de personagens. Ninguém aqui têm nuances, como a jovem profissional fã da empresa onde trabalha, impressionada com os horrores cometidos pelos chefes, ao jornalista heroico. A figura mais interessante seria, também, a mais famosa: Zuckerberg, interpretado por Jeremy Strong, que replica o mesmo olhar vago e a sensação de robô sem alma que a figura real transmitem. Mas, como Madison, ele não tem muito o que fazer aqui já que uma curiosidade psicológica sobre essa figura tão complexa do nosso tempo não está na pauta de Sorkin. Os personagens que orbitam em torno dele são igualmente monocórdicos, como o assessor do CEO, interpretado por Billy Magnussen, ou uma RP, interpretada por Wunmi Mosaku, que tenta humanizá-lo na busca de criar uma nova imagem para a empresa.

Apesar do lastro no real, O Outro Lado das Redes parece acontecer longe do contato com a realidade e, pior ainda, da complexidade das relações humanas, sociais e políticas que passaram a ser mediadas por redes sociais. Os acontecimentos de 6 de janeiro de 2021 nos EUA – e dois anos depois, algo semelhante aconteceu em 8 de janeiro no Brasil – parecem não fazer a menor diferença para Sorkin em seu retrato de como o Facebook era legal até que deixou de ser. Mas a verdade é que nunca foi legal mesmo.

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