Se o título Elite Devassa já não tivesse sido usado no filme de 1984, o cineasta Taciano Valério poderia tê-lo usado, ao invés de Ao sabor das cinzas. Ou seja, não é nenhuma novidade dizer que a elite brasileira é corrupta e pútrida, e aí está o maior problema deste longa – dizer o óbvio.
Para isso, vai lá ao século XIX pegando inspiração em Memórias Póstumas de Brás Cubas com um morto que mesmo morto serve como ponto de vista, e assim revelando as baixezas da classe alta. Ou seja, nada de novo até aqui. O falecido, no caso, é Seu Lauro (Everaldo Pontes), patriarca de uma rica família paraibana, cujas filhas (Verônica Cavalcanti e Maria Lima) entram em disputa pelo enterro dele, e enquanto o corpo é transportado de uma cidade para outra, ele nu “volta à vida”, e conversa com uma jovem que está no carro do IML que o transporta.
Ao mesmo tempo, a neta dele (Isadora Gibson) prepara um material bombástico revelando segredos horríveis de sua família. Coincidentemente, o avô realizou atos escusos muito parecidos com coisas que aconteceram no cenário político nacional recentemente.
Mas quando isso vem à tona, o filme se coloca num lugar complicado. Por que até então, Seu Lauro é pintado como um sujeito simpático, um bom malandro, quase um herói que voltou do além? É um nó narrativo que Ao sabor das cinzas é incapaz de resolver, apoiando-se demais apenas em seu retrato previsível dos ricos para apontar o que há de errado no país. Para usar uma expressão do filósofo brasileiro Paulo Arantes, o filme arromba uma porta aberta.
