Gênero raríssimo na mostra competitiva do Festival de Brasília, a animação mineira Ana, En Passant, de Fernanda Salgado, abriu a edição 2026 com uma nota poética e delicada que envolve uma narrativa adulta sobre questões envolvendo mulheres negras. Antes desta, apenas a animação gaúcha Rocky & Hudson, de Otto Guerra, havia sido selecionada para a competição daquele festival, vencendo o Prêmio Especial do Júri em 1994.
Como é comum na realização de animações, ainda mais longas, Ana, en Passant percorreu uma longa odisseia até sua conclusão, que se estendeu por oito anos, desde a ideia inicial, passando por editais, laboratórios de roteiro, retenção de verbas no governo Bolsonaro e outras peripécias. O resultado final, felizmente, refletiu um processo meticuloso, fruto do trabalho de 60 animadores, em sua maioria brasileiros, numa coprodução que incluiu também Portugal e a França (esta, na etapa da finalização e pós-produção).
Utilizando várias técnicas, como 2D e stop-motion mas especialmente a rotoscopia, o que inclui filmagens de atores, Ana, en Passant apoia-se num roteiro adulto, refletindo a problemática de duas mulheres, Ana e Alice (ambas interpretadas pela atriz Jéssica Pierina), que podem ser vistas como extensão uma da outra. Ana está vindo da França, elaborando o luto pela avó, também chamada Alice (Zezé Motta), de quem obteve a chave de um apartamento em Belo Horizonte, no qual mora a jovem Alice, que está grávida.
Depois do estranhamento deste encontro, Ana e Alice passam a trocar experiências que se relacionam com amadurecimento, identidade e até territorialidade - são muito belas as sequências em que Ana descobre paisagens de uma Belo Horizonte em que entram pela tela imagens oníricas, utilizando água, um dos elementos constantes da história, que conta ainda com a participação do ator Carlos Francisco, como o velho carteiro André.
Um dos pontos fortes do filme está em ter incorporado na equipe várias diretoras com experiência e prêmios, caso de Safira Moreira (na direção de fotografia e que realizou o premiado Cais) e Camila Kater (diretora de animação que realizou antes o premiado Carne).
A beleza das imagens, à qual se soma o trabalho da diretora de arte Marcella Tamayo, embala uma história que seduz pela hipnose dos trajetos, tornando o filme um objeto muito particular e original, que venceu em Brasília o Prêmio Zózimo Bulbul.
