A semente do luminoso Amor Possível, de Lee Chang-dong, nasceu em 2022, a partir deste inspirado curta-metragem. E pensar que se tratou de uma missão de encomenda. Chang-dong aceitou o convite da Organização Mundial de Saúde para produzir um curta sobre depressão e assinou esta pérola de sensibilidade e força impecáveis - cujo epicentro ele desenvolveu, ampliando a história para o longa de 2026, premiado com o Leão de Prata em Veneza (Grande Prêmio do Júri).
O protagonista é o menino Chul (Kim Gun-woo), que a câmera acompanha colada ao seu rosto quase o tempo todo, tomando a temperatura de suas emoções à flor da pele. O garoto está na escola e se inquieta quando a mãe (Jeong Do-yeon) não atende ao telefone. O fato, que parece corriqueiro, leva-o ao desespero e a usar de todos os meios para fugir da escola, lançando-se num esforço para encontrar a mãe.
Em seus precisos 28 minutos, o filme acompanha o trajeto angustiado do pequeno e suas interações com algumas pessoas, recurso que permite a progressiva revelação dos detalhes da história. Quando o menino volta para casa e encontra a porta do apartamento trancada, sem que ninguém atenda à campainha, é ao pai que ele telefona, a partir do aparelho de um zelador. Pela conversa é que se descobre que esse pai (Sul Yung-gu), de quem se ouve apenas a voz ao telefone, é um operário demitido da fábrica onde trabalhava há 20 anos e, no momento, participa de um protesto. E também só aí é que se sabe que a mãe sofre de depressão e isso é que apavora o menino.
Impossível não empatizar com a angústia dessa criança, que não tem mais de 7 anos, sentindo-se responsável pela vida da mãe fragilizada, sem que qualquer adulto ao seu alcance compartilhe o mesmo sentimento de urgência, ampliando seu medo e solidão.
Só na parte final é que Chul pode, finalmente, compartilhar essa batida de coração de que fala o título com alguém - e aí a ternura explode em toda a sua beleza.
Os dois atores que interpretam os pais atuam também no elenco de Amor Possível, como o casal de trabalhadores vitimado pelo desemprego do homem - situação que, no longa, é ampliada com vários outros personagens e implicações.
