04/11/2026
Drama

Amor Possível

Ye-ji é uma documentarista, casada com um alto executivo, Sang-woo. Ela pretende fazer um documentário sobre uma fracassada greve numa empresa metalúrgica, que foi violentamente reprimida e causou o desemprego e vários traumas na vida do trabalhador Ho-seok, cuja mulher é Mi-ok, operária têxtil. A aproximação entre os dois casais leva à formação de um novo relacionamento, no qual não tardam a aparecer contradições. Na Netflix (em 6-11).

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O novo filme do veterano e premiado cineasta sul-coreano Lee Chang-dong, que os brasileiros conhecem do potente Em Chamas (2018) e do delicado Poesia (2011), venceu um merecido Grande Prêmio do Júri em Veneza - e poderia facilmente ter arrebatado o Leão de Ouro. Trata-se de um admirável enredo sobre as múltiplas relações que se formam entre dois casais de classes sociais diferentes, produzindo um filme envolvente e com muitas camadas. A inspiração, aliás, veio de um curta, Heartbeat, também assinado por Chang-dong, disponível na Netflix.

O casal proletário é formado por Mi-ok (Jeon Do-yeon) e Ho-seok (Sul Kyung-gu), o mais rico, pela documentarista Ye-ji (Cho Yeo-jeong) e o executivo Sang-woo (Jo Iu-Sung). Eles se aproximam quando a documentarista leva adiante o projeto de resgatar as histórias por trás da fracassada greve numa empresa metalúrgica, que foi violentamente reprimida e causou o desemprego e vários traumas na vida de Ho-seok, cuja mulher é operária têxtil. 

À medida que a cineasta e, depois, seu marido, se envolvem na vida dos dois trabalhadores, outras relações se formam, permitindo a Chang-dong abrir várias camadas, num filme muito denso, que explora as contradições do capitalismo, do sindicalismo, da luta de classes, enfim, interferindo evidentemente nas expectativas despertadas pela aproximação entre duas realidades muito diferentes, como são as dos dois casais.

Aliás, os mestres sul-coreanos têm sido precisos em realizar filmes que dissecam a crise atual do capitalismo, como Bong Joon-ho em Parasita e Park Chan-wook em A Única Saída. Com Amor Possível, Chang-dong não ficou atrás, oferecendo um filme rico em complexidade e sensações, demonstrando o auge de sua forma narrativa.

Assinando o roteiro em parceria com Jungmi-oh, Chang-dong esmera-se em sua habitual perícia de extrair sentimentos e reflexões com uma profundidade de que poucos diretores e roteiristas são capazes. Por isso, o filme impressiona e permanece na memória, fazendo valer a duração de suas quase 3 horas com a compensação de que se assistiu a uma obra extraordinária. 

A lamentar, apenas, que o filme não tenha uma carreira maior nos cinemas, tendo sido exibido em salas apenas em poucas sessões na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 

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