18/09/2026
Documentário

Eldorado - Lituanos no Brasil

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Este enxuto documentário (de 68 minutos), uma parceria entre o cineasta brasileiro Fabiano Canosa e o lituano Julius Ziz, revela alguns aspectos de um dos povos europeus que foram atraídos à imigração no Brasil no começo do século XX, dentro de um obscuro projeto de "branqueamento" do país. Não há dúvida de que, depois da abolição da escravatura, no final do século XIX, traçou-se uma política governamental neste sentido. O filme relembra, por exemplo, o empenho do governador carioca Miguel Couto para implantar uma legislação que impedisse negros, amarelos e judeus de chegar ao país. E, no governo do presidente Washington Luiz, não foram poucas as iniciativas de atrair imigrantes europeus - e também japoneses - para trabalhar nas lavouras do café, numa mal disfarçada tentativa de contrabalançar a forte presença dos negros, agora libertos, na população brasileira.

Invadida várias vezes pelos russos e submetida a altos e baixos econômicos, a Lituânia foi um desses países onde a ilusão de um Eldorado nos trópicos estimulou a partida de milhares de pessoas rumo ao Brasil. Calcula-se que, nos anos 20, cerca de 30.000 lituanos desembarcaram por aqui. A ilusão de um paraíso, porém, começava a desfazer-se ainda durante a viagem. Não raro, os lituanos eram embarcados em navios precários, onde havia não mais do que um banheiro para cada grupo de 300 pessoas. Por conta disso, as mortes, especialmente as de crianças, contavam-se às dezenas.

No caso dos lituanos, havia ainda um outro flagelo além das más condições higiênicas e das condições quase escravagistas de muitas fazendas de café. Era a chamada Alfa, uma organização que oferecia terras a baixo preço para os lituanos. Muitos deles entregaram todas as suas economias a esse projeto, afinal, uma grande fraude. Os três lituanos que o lideravam não passavam de vigaristas que nem mesmo eram os proprietários legais da terra onde os imigrantes formavam seus sítios.

Apesar disso, a maioria desses lituanos aqui permaneceu e formou raízes. O cineasta Julius Ziz encontra alguns deles em São Paulo, mediante um recurso singelo: posta-se diante da Estação da Luz com um cartaz onde se lê, em sua língua: "Procuro lituanos". E encontra pelo menos um, que o guia até sua mãe, uma remanescente dos imigrantes dos anos 20 que o colocará em contato com outros membros da colônia.

Em seu segmento final, no Rio de Janeiro, o filme faz uma espécie de remissão ao malfadado projeto de branqueamento do Brasil, fechando uma espécie de círculo nas idéias do filme. Julius Ziz encontra a jovem Keyna, que se torna sua guia no mundo da cultura negra brasileira. O ator Antônio Pitanga faz, inclusive, um alentado discurso a respeito da dívida social ainda não-paga em relação à enorme população afrodescendente do país. De maneira meio fragmentária, o trabalho de Ziz e Canosa contribui com mais alguns elementos de reflexão sobre a enorme diversidade cultural do Brasil e um lembrete sobre onde se situa o nó de sua desigualdade.

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