04/06/2026
Drama

Monsieur N.

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Um período pouco conhecido na biografia do notório imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821) tem-se prestado ao surgimento de várias versões literárias. Trata-se do seu final de vida na ilha de Santa Helena, como prisioneiro derrotado, no exílio e estreitamente vigiado pelos ingleses. Ultimamente, algumas histórias ficcionalizaram uma imaginária sobrevivência de Napoleão a esse desterro. Na deliciosa comédia dramática As Novas Roupas de Napoleão, de Alan Taylor, o ator Ian Holm encarna uma versão em que o imperador teria trocado de lugar com um sósia e escapado para Paris, onde não conseguiu retomar o trono, como pretendia, mas em troca conheceu um grande amor.

Em Monsieur N., apesar de dirigido pelo comediante Antoine de Caunes (o apresentador do programa de TV Eurotrash), o tom não é cômico, mas igualmente fantasia uma versão para a declarada morte oficial de Napoleão na ilha, em 1821. Partindo de uma idéia original de Pierre Kubel, o roteirista René Manzor imagina que, afinal, Napoleão (Philippe Torreton) pode muito bem não ter morrido exatamente neste local nem nesta data. O que teria permitido a confusão é fato histórico: o desaparecimento do corpo de seu mordomo Cipriani (Bruno Putzulu), que morrera pouco antes do patrão.

Teorias da conspiração em torno de personagens famosos não são nenhuma novidade. Elvis, Raul Seixas e até Jesus Cristo são freqüentemente objetos de algumas delas. E a popularidade de Napoleão é suficiente para alimentar toda espécie de delírio, como se pode comprovar até mesmo em hospícios. A novidade aqui está em como a lenda alimenta uma história policial histórica, numa produção bastante cuidada, com belíssima fotografia - o que valoriza as locações na África do Sul que, num determinado momento, fazem as vezes do Rio, parte da trama como local de origem de uma frustrada tentativa de resgate do imperador aprisionado.

Um ponto alto está no desempenho excepcional dos atores, recrutados entre a França e a Inglaterra. O Napoleão de Philippe Torreton, tal como o de Ian Holm, esquiva-se dos muitos clichês do personagem, fartamente interpretado no cinema. Com a vantagem, para Torreton, que o registro mais dramático desta história permite-lhe colher aspectos inesperados da humanidade do imperador, visitado num momento de derrocada militar, certamente, mas onde ainda mantinha intactos seu orgulho, dignidade, cinismo e paixão. O Napoleão de Torreton certamente não aspira a ser um herói hollywoodiano, nem mesmo simpático. Transpira, por isso, uma energia admirável e uma total convicção. É difícil não respeitá-lo, mesmo que isso não acarrete necessariamente admiração.

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