25/06/2026
Drama

Lugar Nenhum na África

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A originalidade desta produção, vencedora do Oscar de filme estrangeiro em 2003, está em colocar a questão judaica na África - um continente que não se espera ver como cenário deste tema por sua distância da máquina de eliminação nazista. Justamente por essa distância é que se desloca para o Quênia dos anos 30 a família judia alemã formada pelo advogado Walter Redlich (Merab Ninidze), sua mulher, Jettel (Juliane Köhler), e sua filha de seis anos, Regina (quando menina, interpretada por Lea Kurka).

Identificando profeticamente na perseguição incipiente aos judeus um sinal de perigo, Walter consegue um emprego como administrador de uma fazenda no Quênia, então uma colônia britânica. Abandona sua confortável casa em Frankfurt, deixando para trás mulher e filha, a fim de estabelecer-se. Lá chegando, contrai malária, primeiro sinal de sua inadaptação a um ambiente que será, inicialmente, hostil. Logo depois, chegam Jettel e Regina, com a bagagem mais reduzida possível, a fim de não atrair suspeitas das autoridades nazistas.

Imersos num cotidiano muitas vezes brutal, para quem estava habituado a uma vida elegante e urbana, os Redlich reagem de maneira distinta ao novo país. Walter sente o peso de um trabalho que é muito mais rústico do que o de advogado. Jettel é a mais inconformada com a falta de conforto e a que mais assume a postura de colonialista, especialmente em relação ao cozinheiro Owuor (Sidede Onyulo) - que ela tenta tratar como um serviçal, ao que ele resiste. A cena mais emblemática deste atrito é quando ele recusa carregar latas de água, porque, em sua cultura, este não é um trabalho de homem. Quem lida melhor com a nova pátria é a menina, que se integra com as demais crianças, aprendendo a língua e os costumes com entusiasmo.

Gradativamente, a guerra ficam em segundo plano na vida da família. O que acontece na Europa, por pior que seja, está longe dos Redlich, e isto é um dilema, porque evoca a saudade e o sentimento de impotência, de não poder proteger os parentes que ficaram ao alcance dos campos de extermínio. Ao mesmo tempo, emerge a questão do choque cultural, do colonialismo e do racismo, todas questões explosivas na relação entre europeus e africanos naquele momento. A história acerta ao insinuar que há um substrato comum entre a perseguição nazista aos judeus, a dominação colonialista européia contra os africanos e também a discriminação dos ingleses contra os alemães judeus em alguns momentos. No final, a essência é a exploração do homem pelo homem repetida em cenários diferentes.

Como contraponto a esta persistência do mal em lugares tão diferentes como a Europa e a África, não há símbolo mais eloqüente da possibilidade de integração do que a relação fraterna entre o cozinheiro africano, orgulhoso defensor de sua identidade cultural e racial, e a menina européia, que tem uma visão aberta e livre de preconceitos para descobrir e respeitar este mundo novo e diferente.

Não deve passar despercebido o peso das personagens femininas - Jettel, simbolizando a transformação de uma dona-de-casa européia e mimada, e Regina, que se torna adulta e multicultural. O maior valor deste filme está no acúmulo de camadas - embora se possa ressentir de uma certa pasteurização nas questões políticas. Apesar de tocar temas candentes, o filme evita o tom discursivo, bem como ir mais fundo nos conflitos. A sutileza aí poderia ser vista como uma fraqueza, não fosse o fato de que o roteiro adapta o romance autobiográfico de Stephanie Zweig, que enxergou o período conturbado dos anos 30 com olhos de menina.

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